São Pedro e São Paulo
O cristianismo não é antes de tudo uma doutrina ou uma moral, mas uma pessoa, um rosto, uma experiência pessoal, irradiante e encantadora. Pedro e Paulo foram cativados pela pessoa de Jesus. Conheceram o olhar fulminante do Senhor que como um raio de luz, os encantou, arrebatou e fascinou. Hoje, com a proposta da iniciação cristã, a Igreja quer facilitar a experiência do reencantamento por Jesus Cristo e seu reino, na trilha destes grandes apóstolos.
São Pedro representa o ''perfil petrino'' da Igreja, ou seja, o tesouro da tradição da fé, o lado institucional da Igreja, sua organização e dimensão hierárquica, interna, canônica. Pedro é a cabeça, o responsável, o guia, o pastor do rebanho. Os papas são seus sucessores. Foi Pedro que confessou: ''Tu és o Filho de Deus''. E disse a Jesus: ''Senhor tu sabes que eu Te amo''. A fé e o amor são a rocha e as chaves da Igreja. A fé e o amor não permitem que a Igreja se autodestrua nem seja destruída.
Hoje, o sucessor de Pedro é o Papa Bento 16 que cativa o mundo com sua profundidade espiritual, teológica, eclesial. Temos um papa bíblico, ecumênico, missionário, catequético, corajoso, simples. Ele sempre nos convida a aprofundar nossa amizade com Jesus, a nada antepor a Cristo Jesus, a transformar os desertos em jardins, a vencer a ditadura do relativismo, a praticar o perdão, a acreditar no amor de Deus.
São Paulo é a configuração do ''perfil paulino'' da Igreja. Com ele tem início o Ocidente cristão, pela abertura da Igreja ao mundo pagão. Paulo é o missionário incomparável. Apóstolo dos gentios, das nações, das cidades e das casas. Ele se identifica como o menor e o último dos apóstolos, mas, é vaso de eleição, doutor da graça, na verdade judeu radical que se tornou discípulo apaixonado de Jesus Cristo até a tortura, a prisão e a morte. Paulo teólogo, místico, missionário, fundador de comunidades que não deixa de ser fabricador de tendas, é o gigante da missão.
Para Paulo, o cristão deve ser como um atleta, um semeador, um soldado, porque foi conquistado por Cristo Jesus. Paulo é também, prisioneiro do Evangelho, doutor, pastor, escritor, profeta, mártire de fé. Ele que era perseguidor, blasfemo, inimigo dos cristãos. Agora convertido vai lutar contra o paganismo e o judaísmo. Nunca mais esqueceu a forte luz do céu, nem a voz que o chamou pelo nome. De perseguidor passa a perseguido. Um homem de Deus, forte na exigência e cheio de ternura, místico e trabalhador, sabe corrigir e consolar, repleto de energia e de calor humano.
Pedro e Paulo nos impelem a amar a Igreja. Não pode ter Deus por Pai, quem não tem a Igreja por mãe, dizem os santos padres. ''Bendita e louvada seja a mãe Igreja, nos joelhos de quem aprendi toda a verdade'' (A. Frossard). O que mais me fascinou na Igreja, diz Bento 16, é que ela com tantas fraquezas e falhas se mantém, caminha e cresce. Amemos a Igreja que Cristo amou e por ela se entregou. Igreja feliz porque é a continuação da encarnação e da obra de Jesus Cristo. Igreja sublime porque é mistério da graça, onde os pecadores e pobres encontram misericórdia e os oprimidos a liberdade.
Amar a Igreja, não é tomar atitudes fanáticas, triunfalistas, conservadoras, dogmáticas, moralizantes. Amar a Igreja é buscar antes de tudo a santidade e a conversão, ser discípulo da Palavra, participar dos sacramentos, evangelizar por amor pastoral. Amar a Igreja é sofrer por ela, preservar sua unidade e comunhão e dedicar-se à missão, tendo por prioridade o amor aos pobres. Não podemos amar Cristo e odiar a Igreja, não existe Cristo sem o reino, sem a Igreja. O sangue dos mártires, a coragem dos profetas, a ousadia dos missionários, a fidelidade dos santos engrandecem a Igreja de Cristo e comprovam que ela é mistério, comunhão e missão.

DOM ORLANDO BRANDES é arcebispo de Londrina

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