ESPAÇO ABERTO
A 'mulher de César' ficou nua
Os ditados populares são um poço de sabedoria. Despertam, numa simples frase, um universo de sentimentos, como este que ensina como deve comportar-se a mulher de César - fazendo alusão às mulheres dos antigos imperadores romanos - que, além de honestas, precisavam parecer honestas.
Este ditado nos alerta acerca das reais intenções que levaram os gestores de Londrina a estabelecer a polêmica Lei da Muralha. A lei, indiscutivelmente, beneficia apenas alguns poucos empresários do ramo de alimentos, confortavelmente instalados e protegidos no interior da ''muralha'' e prejudica o restante da comunidade. Também, prejudica Londrina, que perde empregos e receita ao inibir a vinda de novos empreendimentos para cá.
Em consequência da lei, os londrinenses são induzidos a pagar mais para adquirir os mesmos produtos encontrados em estabelecimentos similares, de outras cidades. A lógica do mercado é esta mesma, se não há concorrência, para que reduzir preços?
A recente divulgação dos resultados de um estudo encomendado pelo Movimento Londrina Competitiva e realizado pela empresa de pesquisas de mercado MetaMídia, nos inquieta e suscita dúvidas.
O estudo analisou o comportamento dos preços praticados pela rede de supermercados local, comparados aos das mesmas redes ou similares, de Maringá e Curitiba e comprovou que a reserva de mercado em Londrina, como resultado da Lei da Muralha, encareceu em 9,4% os produtos da cesta básica para uma família de quatro pessoas, com renda entre 3 e 5 salários mínimos.
O resultado sugere que, ao invés de proteger os pequenos mercados - justificativa apresentada para promulgar a lei - o que efetivamente aconteceu foi o aumento dos preços e do lucro dos grandes estabelecimentos já em operação no interior da muralha.
À luz da pesquisa fica a pergunta: os proponentes e defensores dessa esdrúxula proposta de lei buscam o quê, de vez que para a cidade e seus habitantes só há prejuízos? Estariam eles satisfeitos, apenas com a constatação de que a lei conseguiu aumentar o lucro dos estabelecimentos amuralhados ou estariam buscando o ''dá cá'', como resposta ao ''toma lá''?
A recente prisão de um empresário oferecendo R$ 40 mil ao vereador Roberto Fú (PDT), para que o mesmo se ''esquecesse'' do projeto pelo qual tanto batalhou, é emblemática. Ele não aceitou, mas foi o único a receber este tipo de proposta? A mulher de César precisa se explicar. As aparências sugerem que ela não é honesta. Seria ela, então, desonesta? Quem pode ajudar a esclarecer esta questão e parece que o está fazendo com muita competência, são os defensores da cidadania, como o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) e o Ministério Público. Londrina espera resignada, mas alerta.
Os juízes dos malfeitos seremos nós, os eleitores de Londrina, que precisamos gastar 9,4% a mais da renda que sobra depois de pagarmos 40% em impostos. Na falta de justificativas convincentes, que não deixem dúvidas acerca das boas razões pelas quais devemos pagar mais caro pela mesma mercadoria, os eleitores londrinenses precisam se lembrar na próxima eleição quais são os personagens que apoiam esta lei execrável e varre-los da política.
Fernando Cavendish, o dono da construtora Delta informa, com a experiência de quem é do ramo, que cada político tem um preço. A propósito, quanto vale um prefeito e um vereador?
AMÉLIO DALL'AGNOL é engenheire agrônomo em Londrina





