Conta-se que certa vez uma mãe desesperada em razão do mau hábito do filho de comer torrões de açúcar, foi ter com o sábio eremita que vivia numa caverna nas montanhas: ''Grande guru, com sua profunda sabedoria, ajude-me a convencer meu filho a não comer mais o açúcar (na Índia o uso do açúcar é considerado muito nocivo à saúde, aliás, por aqui também'').
O guru apiedou-se da angustiada senhora, mas depois de meditar algum tempo, respondeu-lhe: ''Senhora, prometo ajudar, mas, por favor, volte daqui a dez dias''.
Ansiosa a mulher retornou à caverna do sábio no prazo recomendando. Após um período de contemplação mais uma vez o guru lhe disse: ''Ainda não será possível fazer nada pelo menino. Volte em cinco dias''.
Essa mesma situação se repetiu mais algumas vezes, até que finalmente o eremita ordenou que trouxesse o filho. Não foi necessário mais do que alguns minutos ouvindo as sábias palavras do mestre e o mancebo retornou à mãe completamente convencido da gravidade do seu comportamento e nunca mais comeu açúcar.
Passado algum tempo e certificando-se da melhora na saúde do filho, a mãe voltou à caverna do velho guru para agradecê-lo. Embora aliviada uma dúvida ainda a intrigava: ''Sábio mestre! Por que demorou tanto para me ajudar, já que foi tão fácil fazê-lo?''. O grande e respeitado Homem Santo prontamente respondeu: ''Minha senhora! Eu não podia ajudar o menino, pois eu também comia açúcar! Foi a senhora que chamou a atenção para o meu problema''.
Podemos extrair um grande ensinamento desse breve conto se o relacionarmos à situação que estamos vivenciando em nossa sociedade atualmente. Estudos realizados por diversos organismos nacionais e internacionais e amplamente difundidos, demonstram o assustador aumento no consumo de bebida alcoólica pela população mundial, e, especialmente pela brasileira que já é terceira maior consumidora dos derivados etílicos nas Américas.
O alcoolismo é reconhecidamente hoje a segunda maior causa de morte evitável no mundo, perdendo apenas para o tabagismo, isso sem considerar a morte de terceiros envolvidos em situações provocadas por alguém alcoolizado. Contudo, o senso comum ainda atribui unicamente às drogas ilícitas a responsabilidade pela gravidade das nossas mazelas sociais. É claro que elas estão diretamente associadas às questões da violência e o agravamento da saúde, porém olhar a questão por esse ângulo só ajuda a ampliar a distorção promovida pela dicotomia do lícito e do ilícito, ampliando a crença de que ''se é licito é bom, e ilícito, ruim''.
Se nos colocarmos na posição do guru do conto acima, não falaremos mais com tanta propriedade acerca da prevenção do uso indevido de drogas e nem discorreremos com tanto entusiasmo sobre os efeitos da repressão ao tráfico enquanto não formos capazes de mudarmos a nossa relação com as drogas lícitas, sabidamente as que têm deixado as maiores sequelas nas questões sociais que nos afetam atualmente.
Ao fazer essa reflexão me parece pertinente a discussão que está sendo promovida pelo Senado Federal sobre o projeto de lei que prevê a descriminalização do porte de drogas para consumo próprio, não pela proposta em si, mas por desnudar a hipocrisia que está por trás da política pública nessa área. Não é mais sensato tratar com glamour uma droga altamente deletéria quanto o álcool enquanto outras, independente do maior ou menor poder de causar danos, são listadas no mesmo patamar de ilegalidade. A nova polêmica está aberta.

JAIR QUEIROZ é psicólogo e pós-graduado em Segurança Pública em Londrina

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