Espiritualidade subversiva
A recente condenação do ex-deputado do Distrito Federal Júnior Brunelli a pagar R$ 3 milhões aos cofres públicos por ser o protagonista da ''oração da propina'' foi um dos mais lúcidos atos do judiciário brasileiro em todos os tempos. É obvio que a hipocrisia emanada daquele parlamentar ainda não cura o mal maior que assola a retórica enganosa de grande parte dos políticos brasileiros: usar o nome de Deus em vão. Mas mesmo que demore todo cidadão deve trabalhar pela conscientização daqueles mais humildes, que ainda acreditam nas palavras profanas que fluem da boca desses pérfidos políticos.
De duas décadas para cá surgiram muitos políticos que se tornaram famosos proclamando palavras de fé em templos religiosos erguidos com a finalidade exclusiva de gerar receita e manter os adeptos em permanente cativeiro. Esses emergentes, a exemplo do ''orador da propina'', nunca conseguirão enganar por muito tempo, pois não possuem imunidade cristã e se perderão na ganância da arrecadação.
Esses falsos profetas desejam que as suas comunidades sejam, sempre, dependentes de suas falas, pois assim manipulam multidões. São agiotas da fé. Por dominarem o conhecimento bíblico, vocalizam o poder de persuasão para iludir os fiéis comparando-se a Jesus, como se isso fosse possível. Há ''líderes religiosos'', por exemplo, que lançaram, há poucos meses, o inusitado spray ''mata capeta''. E pior: vendeu-se mais de um milhão de unidades e ainda tem muita gente de boa-fé que acredita nesse tipo de coisa. Santa e pura ignorância. Aliás, quanto mais ignorantes os povos, mais presenciais serão esses abutres.
Agora, nas eleições municipais, haverá momentos oportunos e desafiadores para se aquilatar o tema em tela. Será que os candidatos serão ousados e referenciarão as sagradas escrituras? Será que terão a coragem de anunciar as boas novas como sendo o bom pastor das ovelhas desgraçadas pela miséria? Será que cantarão músicas religiosas para tentar demonstrar afinidade com a nobre causa? De fato, será um ótimo momento para se avaliar até onde essa espiritualidade é límpida ou se verga pelo campo da subversão.
Em todo debate e aparição pública esses profissionais das legendas e coligações demonstram, muitas vezes, uma falta absoluta de ideias e projetos. Criam dificuldades para vender facilidades e dão a bênção final nas entrevistas e confrontos televisivos fazendo a referência a Deus. ''Se Deus quiser... com fé em Deus... fiquem com Deus...'' e assim por diante. Essa é mais uma profunda falta de preparo, originalidade e competência.
Essa malandragem deveria ser comparada a um estelionato, pois vendem uma imagem falsa de expectativa e se locupletam com a boa-fé das pessoas, que precisando de algo confortador, depositam suas esperanças no imaginário da salvação. Que bom seria se o Judiciário punisse, de fato, todos esses quadrilheiros e possibilitasse, de forma duradora, a troca do terno e gravata por um pijama xadrez.
As igrejas sempre terão uma importante colaboração no esclarecimento às comunidades. Mas, igreja de verdade é aquela erguida com o propósito de ser a Casa de Deus, muito diferente de algumas ''organizações religiosas'' onde o lucro é a intenção única do Evangelho e, não dar sua gorda contribuição, é a certeza de ir direto para o inferno.

WILMAR MARÇAL é professor universitário e membro da Academia Londrinense de Artes, Ciências e Letras

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