ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
sábado, 16 de junho de 2012
Luís Miguel Luzio dos Santos 
Há 20 anos o mundo foi alertado para os riscos que ameaçavam a vida na terra diante do modelo de desenvolvimento vigente. Vem caindo o mito do crescimento econômico infinito, impulsionado por um consumo compulsivo e alienado, que esbarra nos limites naturais do planeta e que se manifesta por meio de mudanças climáticas, redução drástica da biodiversidade e desertificação do planeta, o que provoca efeitos mais visíveis e dramáticos sobre as populações mais pobres. Desde 1992 muitas promessas foram feitas sob a forma de convenções e protocolos, porém os avanços efetivos são extremamente tímidos diante do colapso eminente, acreditando-se que o tempo possa ser manipulado a nosso favor.
A Rio+20 que envolve representantes de países e ONGs do mundo inteiro e está centrada na ideia de economia verde, conceito ainda vago, mas com algumas propostas já definidas, tais como: 1- abandonar-se o Produto Interno Bruto (PIB) como principal indicador de desempenho econômico, substituindo-o por um índice mais realista, que considere o desgaste dos recursos naturais e a importância de fatores não materiais para o desenvolvimento social e humano; 2- investimentos públicos e de bancos multilaterais centrados em inovação verde, utilizando os recursos naturais de forma mais eficiente, energias limpas, reflorestamento, transportes sustentáveis, saneamento, além de incentivo a projetos de inclusão produtiva, como cooperativas populares; 3- mudança nos sistemas tributários nacionais, substituindo tributos/subsídios ambientais e sociais para que incidam efetivamente sobre quem mais polui e quem mais ganha, além de uma taxação internacional que possa financiar o desenvolvimento sustentável dos países mais pobres.
A discussão desses temas pretende traduzir-se em propostas para vigorarem a partir de 2015, data-limite para o cumprimento e avaliação dos ODMs - objetivos do milênio.
A Royal Society (associação britânica de cientistas) apresentará na Rio+20 um estudo especialmente interessante que aponta para duas áreas críticas e que ameaçam o futuro da vida no planeta. A primeira evidencia o consumo excessivo e inconsequente dos países desenvolvidos que ameaça o estoque de recursos naturais. A segunda trata da ameaça do rápido crescimento populacional nos países mais pobres. De acordo com a projeção demográfica da ONU, a população atual de 7 bilhões de pessoas poderá alcançar mais de 16 bilhões no final do século, caso os índices de fertilidade continuem no ritmo atual, com o agravante de que mais de 80% destes serão pobres.
Segundo a Royal Society, além do planejamento familiar e da universalização da educação, os esforços globais devem-se voltar para o desafio de retirar 1,2 bilhão de pessoas da pobreza extrema, o que está ligado a eliminar o desperdício de comida e reduzir o consumo dos ricos. Só para ficar num exemplo, o estudo aponta que ''uma criança no mundo desenvolvido consome entre 30 e 50 vezes mais água do que as do mundo em desenvolvimento''.
Além das medidas defendidas pelo grupo de cientistas britânicos, há um movimento cada vez mais forte que propõe um sistema de governança mundial, que de forma democrática possa agir em escala global para resolver problemas que transcendem as fronteiras de cada país. Também se defende uma maior centralidade econômica em serviços como conhecimento, cultura e arte, que poderão se expandir gerando trabalho e renda sem impactar o meio ambiente. Há que se considerar que o problema atual não é de falta de produção, como já foi no passado, mas exploração irracional do meio ambiente e incapacidade de distribuição adequada dos recursos que são patrimônio da humanidade, parafraseando Gandhi: ''Há bastante no mundo para as necessidades do homem, mas não para a sua ganância''.
LUÍS MIGUEL LUZIO DOS SANTOS é doutor em Ciências Sociais e professor do programa de mestrado em Gestão e Sustentabilidade da Universidade Estadual de Londrina


