O coração de Jesus
Cada ano celebramos a Festa do Sagrado Coração de Jesus. Antes de tudo, lembramos que o Coração de Jesus é o íntimo, o interior, o centro do coração de Deus mesmo.
As Sagradas Escrituras referem-se ao coração como o centro, o interior, a profundidade, a consciência do ser humano. Pensamentos, sentimentos, decisões têm a ver com o coração. Deus vê o coração. Não basta louvá-lo com os lábios. Ele conhece e sonda os corações. Portanto, Ele conhece os segredos e sentimentos de seus filhos.
Com frequência a Bíblia fala da dureza dos corações, que são como pedra. Desses corações saem a mentira, o adultério, a violência, o roubo, a inveja, o orgulho, a calúnia, etc. (cf Mc 7, 20-23). A boca fala daquilo que há no coração. É preciso, pois ''rasgar e circuncidar'' o coração. O sacrifício que agrada a Deus é o coração contrito, humilhado, puro. Os puros de coração verão a Deus.
Na tradição cristã o coração de Jesus é sinônimo do amor, da ternura, da bondade, da paciência, da misericórdia de Deus. A imagem do coração transpassado na cruz, ferido e aberto é o sinal mais comovente do amor de Deus pelo mundo.
Antes de o ser humano amar a Deus de todo o coração, é Deus quem antecipadamente o ama de todo coração. Seu coração de Pai se comove ao pensar em nós seus filhos. Cada ser humano é a alegria de Deus. Por isso, é preciso crer de todo coração, amar de todo coração, agir com todo o coração. Maria guardava a palavra em seu coração, e a palavra de Deus faz arder o coração humano.
Cristo habita nos corações. Ajudando-nos a perceber nossa ''grandeza e a miséria''. Escreveu Pascal que o homem é ''uma novidade e um monstro, um prodígio e um caos, glória e lixo, juiz e imbecil, depositário da verdade e cloaca de incerteza e erro''. A grandeza do homem está em reconhecer a sua miséria. Só Cristo é remédio, luz, verdade, vida, que cura o coração. Ele é o sentido, o centro de tudo, a razão de tudo. O homem não se realiza nem na figura do sábio, nem na do herói, mas, em Jesus, no seu coração transpassado. Ele é a fascinação dos corações.
A devoção ao coração de Jesus é um jeito de a gente perceber que Deus tem sentimentos, que Ele sofre quando nós sofremos, porque nos ama. Percebemos o humanismo, a sensibilidade, a proximidade de Deus. Em Jesus, vemos um Deus com lágrimas nos olhos, cheio de compaixão e rico em paciência: ''Como Deus é humano''. Sua graça nos humaniza. O Deus dos filósofos é impassível, distante, juiz. O Deus da Bíblia, o Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo é amigo, próximo, presente, companheiro. Eis o que é a espiritualidade do coração de Jesus. Assim é possível a Igreja ser ''um só coração e uma só alma''.
Diz uma canção: ''Eu moro no coração de Deus, e Deus mora no meu coração''. Ele mora em nosso coração para que o levemos ao coração do mundo. Nosso coração filial alegra o coração do Pai. Que nossa oração seja um encontro de ''coração a coração'' e possamos perdoar de todo coração.
Jesus bem falou que onde está o nosso tesouro, aí está o nosso coração. Nosso tesouro é o amor de Deus. Ele jamais deixará de nos amar e sente ciúme por seus amados. Nesse amor eterno está a nossa genealogia. Existimos porque somos amados. No coração de Jesus percebemos que Deus está ferido de amor por nós. É preciso abrir as portas do coração e crer no amor de Deus. Não podemos viver num ''ateísmo afetivo''. Só os amados mudam.
Quando nos amamos de todo coração, somos a visibilidade do amor de Deus, no mundo. O coração eterno de Deus foi nosso primeiro útero. Ele nos desejou, nos quis, nos criou e cuida de nós. Descobrindo que somos amados, nos tornamos amáveis. Deus diz: ''Eu te amo como tu és e mesmo se tu me rejeitas. Deixa-me te amar''.

DOM ORLANDO BRANDES é arcebispo de Londrina

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