Meia-noite e meio-dia
Há os que são da meia-noite e há os que são do meio-dia. Quem é do meio-dia diz o que pensa, age às claras, não teme a verdade. Quem é da meia-noite fala por trás, corteja a mentira, não gosta da luz.
Em qualquer lugar, existem seres do meio-dia e seres da meia-noite. Há pessoas dos dois grupos nas casas, nas famílias, nas empresas, nas entidades, nas escolas, nas universidades, nas igrejas, nos gabinetes, nas repartições públicas. Nos meios de comunicação e nas salas da Justiça. Nas câmaras e nas prefeituras. Há gente do meio-dia que trabalha à noite. Há gente da meia-noite que trabalha de dia. A condição de meio-dia ou meia-noite não depende de classe, sexo, etnia, ideologia, religião ou cultura. A lógica do meio-dia e da meia-noite se espalha por todos os ramos de atividade. Há meio-dia e meia-noite nos bairros pobres e ricos; nos partidos de esquerda e direita; na zona norte e na zona sul; no centro e na periferia; na cidade e no campo. Na verdade, é muito raro encontrar alguém que seja só meio-dia ou só meia-noite; cada um carrega sombras e luminosidades dentro de si mesmo. Mas, em geral, um dos elementos sobressai.
O meio-dia e a meia-noite de que estamos falando não são horários. São formas de se relacionar com o mundo.
A gente do meio-dia tem o hábito de torcer a favor. Alegra-se com o sucesso do outro. Não se entristece com as vitórias alheias; ao contrário, toma-as como incentivo. Quem é do meio-dia tem sempre uma palavra de elogio para quem merece; uma palavra de incentivo para quem precisa; uma palavra de sinceridade em qualquer situação. O habitante do meio-dia costuma fazer parte da solução, não do problema.
O povo do meio-dia dedica-se por inteiro - ao trabalho, às pessoas, à cidade. Não deixa nada pela metade, não se divide por mesquinharias, une-se nas horas decisivas. O povo da meia-noite vive sempre dividido: mora entre meias-verdades, meias-palavras, meias-voltas.
A gente do meio-dia não precisa de holofotes; já tem luz de sobra - a luz da amizade, da generosidade, da concorrência leal. A gente da meia-noite, ao contrário, quer sempre estar em evidência, e às vezes só o consegue utilizando a luz artificial da bajulação, da submissão, da negociata, da propina.
Londrina é uma terra construída por gente do meio-dia - os nossos pioneiros. Uma cidade como a nossa não seria possível sem aqueles valores que não entram no PIB, mas são imprescindíveis para o desenvolvimento: transparência, ousadia, lisura, probidade, eficiência. Essas coisas que o povo do meio-dia cultiva desde o berço. Valores que temos o dever de passar aos nossos filhos e netos.
Por vezes, em nossa história, a meia-noite tentou dominar o meio-dia. As forças obscuras querem invadir o reino da clareza. Esse processo tem um nome: corrupção. E não deve ser tolerado. Os recentes episódios na administração municipal deixam a cidade perplexa e envergonhada; portanto, a Acil - há 75 anos uma entidade do meio-dia - vem a público exigir investigação dos fatos e, caso as irregularidades sejam comprovadas, a punição de todos os corruptos e corruptores. Basta de meia-noite na Prefeitura de Londrina!
Bons filhos do meio-dia, os londrinenses gostam de clareza. Se há denúncias de irregularidades e evidências de crimes, é preciso investigá-las a fundo. Nós, londrinenses, filhos do meio-dia, apoiamos o trabalho do Ministério Público, mas esperamos resultados concretos. Os responsáveis devem pagar pelo que fizeram e a sociedade precisa ser ressarcida dos prejuízos.
Os cidadãos de bem - o povo do meio-dia - ainda são maioria em nossa comunidade. E eles exigem celeridade na apuração dos crimes contra o patrimônio público. Celeridade não é sinônimo de pressa nem açodamento; é a combinação entre a rapidez possível e o rigor necessário. O povo do meio-dia quer a luz completa sobre os fatos - e não uma centelha que se apaga nas notícias de amanhã.

NIVALDO BENVENHO e FLÁVIO BALAN são, respectivamente, presidente e vice-presidente da Associação Comercial e Industrial de Londrina (Acil)

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