ESPAÇO ABERTO
Salvar vida exige mais que um desfibrilador
A doença cardiovascular é a principal causa de morte de nossa população. No entanto, tal doença, ao longo de muitas eras, foi discriminada em relação a epidemias de outras doenças como as infecciosas e mais recentemente a Aids.
Outro aspecto que dificulta a sensibilização para a prevenção e tratamento da doença cardiovascular é o fato de ela, em muitos casos, ocorrer de forma súbita. Com isso, fica a falsa impressão de que nada poderia ter sido feito para prevenir ou tratar este evento.
Hoje a maior parte das entidades internacionais reconhece que vivemos uma epidemia de mortalidade cardiovascular e que ações de prevenção e tratamento do infarto agudo do miocárdio (ataque cardíaco), acidente vascular cerebral (derrame) e da morte súbita (parada cardiorrespiratória) devem ser promovidas de forma massiva em todos os níveis da sociedade.
Há mais vítimas de morte súbita que de acidentes de trânsito, câncer ou Aids. É fundamental nesse momento em que foi noticiada na páginas da FOLHA uma vida salva, nos perguntarmos: qual o papel dos cidadãos, população civil, gestores, políticos, médicos e outros profissionais, da saúde ou não, no salvamento de uma vida?
Londrina é uma das cidades pioneiras no Brasil em ações de ressuscitação cardiopulmonar, tendo implantado a primeira lei da América Latina de desfibrilação externa automática há dez anos. Desde 2002 várias ações isoladas foram tomadas, entretanto, poucas ações organizadas, de forma a surtir resultados que vimos em países desenvolvidos.
Na década de 1990, os consensos científicos internacionais acreditavam que o aparelho que dá o choque e faz o coração retomar a batida (desfibrilador automático externo), era o grande responsável pelo salvamento de uma vida que sofria parada cardiorrespiratória no ambiente pré-hospitalar.
Entretanto, novos estudos feitos nos últimos dez anos confirmam que o que salva realmente a vida dessas pessoas é a organização de um sistema conhecido como ''Corrente de sobrevivência'', que deve ser ativamente incentivado e implantado pelo gestor, em uma parceria pública, acadêmica e privada. Ou seja, o envolvimento dos gestores públicos, das universidades, da sociedade civil e médica, do Samu e de hospitais.
A ''Corrente de sobrevivência'' é composta de vários elos, entre eles, o treinamento adequado, a capacidade de reconhecimento da parada cardíaca por quem a presencia, a compressão torácica correta, o choque, o atendimento avançado no local por médico capacitado, transporte e atendimento hospitalar especializado pós-ressuscitação. Portanto, nenhum aparelho é capaz isoladamente de salvar um número grande de vidas.
Trabalhos americanos recentes relatam que, se a pessoa que sofreu uma parada cardíaca receber compressão torácica por um leigo em até um minuto após a parada, isso aumenta em quatros vezes a chance de ela receber alta hospitalar sem sequelas.
Esses estudos ainda comprovam que aquela manobra antiga de ''respiração boca a boca'' não trás melhoras na sobrevivência das pessoas, portanto nesse momento inicial, o que deve ser feito é compressão no peito.
A média de pessoas que apresentam parada cardiorrespiratória súbita fora do hospital na cidade de Londrina é em torno de 500 a 600 pessoas ano, utilizando-se dados epidemiológicos nacionais. Atualmente, salvamos apenas 2% dessas pessoas (dez pessoas) por ano, quando poderíamos salvar pelo menos 300 pessoas a cada ano. Nós hoje, diferentemente de 2002, já sabemos, através de estudos científicos, que o treinamento e capacitação de leigos nos primeiros sinais de dor torácica (infarto ou ataque cardíaco), acidente vascular cerebral (derrame) ou perda da consciência, respiração e movimentos (parada cardiorrespiratória) e a implantação da ''Corrente da sobrevivência'' em nosso município e Estado, pode salvar milhares de vidas.
Acredito que, se ajudamos a salvar uma vida nesses dez anos, já temos o que comemorar, sem, entretanto, desistirmos de continuar a aprimorar a sensibilização e a capacitação de leigos e profissionais de saúde, visando sempre atingirmos níveis de países desenvolvidos. É dever também construirmos a ''Corrente de sobrevivência'' no Paraná.
MANOEL FERNANDES CANESIN é médico cardiologista em Londrina





