ESPAÇO ABERTO
Por que os juros são elevados?
Realidade e mito empreendem viagens em sentidos opostos. Certamente, essa questão deveria ser assunto do pragmatismo econômico e não do pêndulo ideológico esquerda/direita. Mas, a bem da verdade, é preciso dizer: tudo se resume em dividendos, e em política estes pesam sobremaneira, conferindo tranquilidade nas urnas! Os filósofos sofistas na Grécia Antiga eram especialistas em vender o peixe. Ah! a verdade...! Artigo de terceira classe!
Trabalhar com a exposição da realidade, em certas circunstâncias, equivale a tirar as castanhas do fogo, correndo-se o risco, ainda mais nesta ocasião, de receber a ''pecha'' de defensor de banqueiros. Fazer o quê? Melhor seria que todos se conformassem com as regras do pragmatismo e não se embrenhassem numa destemida e indomável ingenuidade ou numa fictícia estupidez, pois hoje não temos mais as figuras tradicionais de banqueiros como os Rotschild. Deram lugar aos acionistas, tão ávidos em obter dividendos quantos aqueles.
Vamos aos fatos. Estão relacionados em duas ordens. Os juros são elevados no Brasil, por algumas boas razões, nem sempre debatidas publicamente, a saber: 1) poupamos pouco: perto de 20% do PIB, incluída a poupança externa; 2) o governo, com a rolagem da dívida, absorve grande parte desse dinheiro e toma emprestado, até, as sobras diárias dos bancos; 3) a concorrência no setor bancário é reduzida. Menos dinheiro irrigando o mercado e concorrência frágil gera juros mais elevados.
Já, sob outro ângulo, podemos destacar: 1) lucros dos bancos e seus custos administrativos; 2) impostos; 3) custos da inadimplência; 4) depósito compulsório; 5) inflação ainda elevada: seis e meio por cento em 2011, enquanto nos países centrais está perto de zero. Essa ordem não está distribuída segundo o seu grau de importância.
Como se tudo isso não bastasse, ainda é preciso considerar que os juros são o principal instrumento da política monetária: na recessão, reduzem-se para aquecer a economia; na inflação, são elevados para a controlar. A nossa taxa referencial, a meta Selic foi concebida para atender a essa pauta.
Agora, novo esforço está sendo implementado para turbinar a demanda, com a redução das taxas de juros dos bancos oficiais, exigindo-se o mesmo dos bancos privados.
Aquecer a demanda sem a devida contrapartida da oferta é cirurgia revestida de risco, desafiando a inflação a mostrar o seu vigor. Tal procedimento seria pacífico se existisse ociosidade de máquinas e de mão de obra, reeditando a fórmula prescrita por John Maynard Keynes, o célebre economista do século passado, mas não é o caso.
Seria pertinente perguntar: qual a repercussão dessa medida no âmbito da oferta? Pois esta, malgrado essas ações, encontra imensas dificuldades, a saber: poupança insuficiente; câmbio valorizado (tendência que está se alterando); carga tributária e custos trabalhistas elevados; baixa produtividade da economia, resultado das dificuldades educacionais; infraestrutura precária; custos da energia elevados, com tributação de 45% sobre o setor.
A prudência indica os caminhos a percorrer: reformas na margem, passo a passo, para desfazer essas carências. Nem revolução, nem acomodação! Apenas desobstrução da oferta!
Voluntarismo semelhante ao que vem sendo adotado pelo governo na área cambial objetivando desvalorizar o real para dar oxigênio às nossas indústrias, que estão sufocadas pela persistente valorização do câmbio, não obstante tais medidas encarecerem os produtos importados. Mas em economia é assim mesmo: resolve-se um problema criando outro. Mas tudo pode ser ajustado pela administração do tempo e da dosagem, e a macroeconomia, desde que aplicada em consideração desses fatores, pode ajudar muito.
IRINEU BERESTINAS é graduado em Ciências Sociais em Arapongas





