ESPAÇO ABERTO
Mulheres no crime?
Gostaria de parabenizar a jornalista Carolina Avansini pela reportagem ''Número de presas cresce 108% no Paraná'' (Reportagem, 6/5). Os argumentos apresentados ao longo do texto, os dados estatísticos expostos e a entrevista realizada com a socióloga Silvana Mariano chamam a atenção para essa realidade de forma crítica e atenta a movimentos em trânsito nos dias de hoje.
Atualmente, faço o Programa de Doutorado em Psicologia Social da Universidade Estadual de Santa Catarina e o foco da minha pesquisa é exatamente sobre a trajetória de mulheres autoras de crimes e atos de violência. Faz dois anos que literalmente tenho que garimpar os poucos materiais teóricos que analisam o fenômeno de mulheres no contexto da criminalidade.
Vivemos em uma sociedade obcecada por segurança e marcada pela violência, sendo que, nos diversos contextos urbanos, fatores como desigualdade social, incitamento ao consumo, espetacularização da vida, dentre outros, concorrem simultaneamente para a produção da criminalidade. Em contrapartida, análises relacionadas a pessoas envolvidas em práticas ilícitas são muitas vezes marcadas por perspectivas naturalizantes e/ou moralistas, como a ideia de estrutura sociopata ou falta de caráter.
A globalização produz ''novas guerras'', que se articulam através da criminalidade (principalmente no tráfico de drogas) em escala global. Nesse sentido, é importante relacionarmos o crime a contextos amplos, culturais e econômicos, se não corremos o risco de subestimar os objetivos políticos que se articulam nessa conjuntura.
Historicamente, uma série de discursos governamentais, acadêmicos e midiáticos, associam mulheres no crime à expressão de insanidade, ''desvio'' de comportamento, e, principalmente, vítimas de relações amorosas com parceiros que cometem crimes. Tais enfoques são antigos, desde a linguagem criminológica do século 19, por exemplo, que situava as mulheres envolvidas em práticas ilícitas como um grupo ''menos capaz''.
O crime não está culturalmente visto como lugar de mulher e as imagens de algumas criminosas gera estranhamento ou silêncio. Tais reações vão de encontro a uma fantasia de que existe uma ''natureza feminina'' passiva. É como se essas mulheres estivessem invadindo sem permissão um campo considerado naturalmente masculino. Quando elas são autoras de ações criminosas, se aposta na ideia simplista e tipificada de que ainda elas seriam incapazes de cometer atos graves de violência, o que implica, por vezes, que elas tenham condenações mais leves que a de homens.
Segundo informações obtidas no Sistema Integrado de Informações Penitenciárias - InfoPen (2012) - do Departamento Penitenciário Nacional do Ministério da Justiça, nota-se que na última década triplicou a quantidade de mulheres condenadas, enquanto a quantidade de homens duplicou. Mais do que sugerir características da criminalidade na atualidade, tais indícios explicitam que, nas últimas décadas, uma série de mudanças (como a inserção da mulher em espaços públicos, a socialização de métodos contraceptivos, entre outros elementos) produz deslizamentos em fronteiras subjetivas e sociais.
De fato, as mulheres estão menos envolvidas no mundo do crime, mas tal dado expressa configurações atravessadas por estereótipos de gênero, e não reflexo de uma ''natureza'' feminina dócil. Mulheres estão ocupando lugares e demonstram competência, por que seria diferente em contextos como o crime?
Tornar visíveis fenômenos como esse, nos ajuda a perceber de forma mais clara uma série de transições que se atualizam todos os dias, bem como pensar estratégias de prevenção mais próximas da realidade.
FLÁVIA CARVALHAES é psicóloga do Programa socioeducativo em meio aberto para adolescentes em conflito com a lei (Creas 2) e docente do curso de Psicologia da Unopar





