O óbvio ululante
Em meados de 2010 o governo nos disse que deveríamos gastar, nem que para isso precisássemos empenhar todo o nosso potencial de crédito. E isso foi de encontro ao mais comezinho princípio de economia doméstica. Quem tem conhecimento das transformações econômicas estáveis, advindas do trabalho diuturno, como ocorreram em nosso país na primeira metade do século passado, principalmente em São Paulo, quando levas de europeus e asiáticos desembarcaram em busca de um futuro promissor, não foi conivente com tal orientação. Aquelas pessoas, que na sua grande maioria tinham baixa frequência em bancos escolares, possuíam uma inegável dose de bom senso. Tinham plena convicção que, para uma ascensão econômica e financeira, precisavam poupar. Assim fizeram e o sucesso serviu para várias teses acadêmicas.
Contrariando o que fora estabelecido e provado, o governo orientou a população para que gastasse acima de sua capacidade de endividamento e os bancos, sempre tão ciosos de seus ativos, pactuaram com esse movimento e abriram as burras. Mesmo quem não tem formação acadêmica já sabia, de antemão, que tal empreita redundaria em fracasso. Os jornais nos informam que o índice de inadimplência, oriundo da compra financiada de veículos, simplesmente dobrou; isso é assustador.
Agora o governo acena com linhas de crédito mais flexíveis e juros subsidiados por bancos estatais. Essa talvez seja uma maneira de reparar o mal criado por uma situação que foi avaliada no auge e emoção de uma campanha política e sem os devidos critérios. Oxalá, a situação possa se resolver, caso contrário, os bancos serão os maiores lojistas de automóveis do país e terão como público alvo uma clientela combalida. Embora saibamos que a indústria automobilística alavanca de maneira rápida a economia e promove as classes sociais num piscar de olhos, torna-se importante avaliar se essa nova classe C não será toda ela motorizada, porém, sem dinheiro para abastecer e tirar o carro da garagem.
EDSON MEDARDO SCARCHETTI é bacharel em Teologia em Londrina



Sem necessidade de sermos cruéis
Certamente seria um espetáculo deprimente, mas, à semelhança do show real do big brother, deveriam ser colocadas câmeras permanentes dentro dos presídios, conectadas aos gabinetes das autoridades para que vissem com frequência a situação nos cubículos e como podem viver confinadas cem ou mais pessoas onde deveria estar apenas metade. Esse realismo poderia ser visto também pela população para saber da precariedade do sistema prisional brasileiro e dar seu parecer, como no BBB. Quem não tem anseio de vingança iria se comover ante a desumanidade ali reinante. É comum ouvir-se que os delinquentes merecem sofrer, mas se eles precisam ser isolados do meio social para que não repitam seus crimes, não há necessidade de sermos cruéis com eles.
Nesse ambiente sórdido não vemos mulheres de corpo escultural, nem homens especialmente escolhidos para agradar aos olhares femininos, nem festas espetaculares regadas a champanhe e pratos refinados, mas sim muita coisa chocante, como a promiscuidade, o sofrimento pelo desconforto, pela ausência de higiene e pela proliferação de doenças, calor e frio e alimentação precária. Coisas que não podem ser admitidas à luz da sensatez humana. Não é dinheiro que falta, mas humanismo. Não se pede mordomias para os presos (o que a maioria dos brasileiros não têm), mas se entre os reclusos muitos foram perversos no praticar seus crimes, a sociedade que se proclama sã e cristã não pode comportar-se como eles, ou será igual. Prendê-los já basta, e melhor se lhes fossem propiciados meios de se ressocializarem.
Empolga as multidões ver como se comportam num recinto fechado 18 homens e mulheres bem dotados e cercados de todo o conforto, mas seria oportuno, para a reflexão das autoridades pertinentes, olhar com mais humanidade a situação dentro de celas fétidas e superlotadas. Prender e isolar, para defesa dos cidadãos, mas sem crueldade.
WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina

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