ESPAÇO ABERTO
Democracia ameaçada
O debate em torno da democracia tende a restringi-la à esfera política. No contexto contemporâneo isso torna-se incipiente, já que a dimensão econômica vem se sobrepondo de forma desproporcional a todas as demais esferas da vida social. Não se pode mais pensar em democracia de fato sem estendê-la à dimensão econômica e aos processos de decisão que lhe são inerentes. Esses continuam dominados por mecanismos autoritários no qual alguns poucos decidem os destinos da grande maioria da população de forma tão natural e decisiva quanto as monarquias absolutistas do século 17.
Um dos maiores paradoxos do nosso tempo é assistir-se ao avanço dos regimes democráticos em todo o mundo e simultaneamente a sua subserviência diante dos interesses econômicos privados. Atualmente, cerca de 500 famílias controladoras das maiores corporações do mundo detêm uma fortuna equivalente a 3 bilhões de pessoas. Esse cenário surrealista não pode ser interpretado em razão do talento ou esforço individual, mas como consequência de uma profunda crise institucional e estrutural em todo o mundo.
Parafraseando Rousseau que já manifestava essa preocupação no século 18, ''uma sociedade só pode ser verdadeiramente democrática se ninguém for tão pobre a ponto de ter de se vender, ou tão rico que possa comprar alguém''.
Estudos no campo da economia e da psicologia social comprovam que, a partir de um certo nível de renda, qualquer soma adicional não se repercute em níveis superiores de satisfação pessoal. Nessa situação, o acúmulo de riqueza transforma-se num perigoso mecanismo de poder que invade corrosivamente o campo da democracia política, cooptando-a e interferindo nas relações de equilíbrio que lhe dão sustentação e sentido.
Uma pesquisa desenvolvida por Sam Pizzigati, do Institute for Policy Studies dos EUA, apontou o desproporcional crescimento das assimetrias de rendimentos entre executivos americanos nas últimas décadas. Reginald Jones, em 1975 era o CEO da General Electric, apontado como um dos mais brilhantes executivos da sua época, recebia uma remuneração que equivalia a 36 vezes a renda de uma família de classe média americana. Em 2000, Jack Welch, CEO da mesma empresa recebeu 144,5 milhões de dólares, ou seja, 3.500 vezes a renda de uma família média dos EUA.
Após a crise econômica americana de 2008 e devido à pressão da população indignada com os rendimentos escandalosamente desproporcionais de alguns executivos, passou a tramitar no Congresso americano um projeto de lei que tenta estabelecer um teto entre o maior e o menor rendimento dos membros da mesma empresa. Haja vista que nas economias mais desenvolvidas socialmente, a baliza que separa os estratos da população com maiores rendimentos dos menores, não ultrapassa dez vezes. São exemplos ainda mais expressivos o Japão, a Alemanha e os países nórdicos em que essa diferença média encontra-se em torno de seis vezes.
A democracia como principal conquista da modernidade vê a sua sustentação condicionada a avanços democráticos estendidos à esfera econômica, através de modelos de gestão participativos, com distribuição mais equitativa da riqueza, renda mínima atrelada a tetos de renda máxima. Isso poderia ser iniciado no serviço público e expandido para o universo empresarial privado, como defende o candidato à presidência da França, François Hollande. Ele propõe uma taxação de 75% sobre os salários anuais superiores a 1 milhão de euros.
Só assim poderemos superar o paradoxo de conviver com democracia política de um lado e despotismo econômico do outro, o que inevitavelmente conduzirá à subordinação do primeiro em relação ao segundo, com consequências desastrosas para a reprodução sadia da vida em sociedade.
LUÍS MIGUEL LUZIO DOS SANTOS é doutor em Ciências Sociais e professor do departamento de Administração da Universidade Estadual de Londrina





