ESPAÇO ABERTO
Produtividade e segurança alimentar
É racional e justificável a angústia que atormenta a moderna sociedade quanto à necessidade de aumentar a produtividade das lavouras, de vez que vivemos premidos pela urgência de produzir cada vez mais alimentos, em espaços cada vez menores e tendo a obrigação de fazê-lo de maneira sustentável, para não comprometer a capacidade dos recursos naturais que hoje exploramos, de prover a sobrevivência das gerações que virão depois de nós.
O temor pela falta de alimentos é antigo e recorrente. Desde que Thomas R. Malthus deu o primeiro alerta, em 1789, sobre a possibilidade de a produção de alimentos crescer num ritmo inferior ao crescimento da população, resultando na morte de milhões de pessoas por fome e inanição, muitas outras pessoas manifestaram preocupações semelhantes. Todos, felizmente, falharam, porque não souberam estimar a capacidade do homem de inovar nas técnicas de cultivo, promovendo o crescimento da produção, via aumento da produtividade.
Desconhecemos qual o limite máximo que a produtividade de um cultivo pode alcançar, mas será, certamente, muito superior à produtividade média obtida atualmente. Para a cultura da soja, por exemplo, o teto de produtividade alcançado por um produtor teria sido de 176 sacas/ha ou 10.560 kg/ha, obtida em 2010 pelo produtor norte-americano Kip Cullers. A produtividade média mundial da soja não chega a uma terceira parte desse montante.
Muitos fatores contribuem para que um cultivo alcance um determinado teto de produtividade. Estabelecer com precisão quanto dessa produtividade corresponde a cada fator de produção é uma tarefa difícil, para não dizer impossível. Por exemplo, no correr dos últimos 50 anos, a produtividade média da soja brasileira cresceu 185% (1.089 para 3.106 kg/ha). Quanto deste montante corresponde aos avanços da genética? Difícil de estimar.
Embora a genética seja um dos mais importantes fatores de produção, ela é apenas uma das muitas ferramentas que determinam o teto de produtividade de um cultivo. No caso particular da soja e em razão dos recentes e bem-sucedidos lançamentos de variedades transgênicas resistentes ao glifosato, de porte ereto e resistentes ao acamamento - que caíram no gosto do produtor - este poderia ser induzido a atribuir todo o crescimento da produtividade aos avanços da genética. Mas não seria correto. Uma variedade geneticamente superior não significa muita coisa, se os demais fatores de produção não estiverem presentes em condições ótimas, para que esta possa expressar o seu pleno potencial produtivo: água na quantidade e momento certos, nutrientes segundo as necessidades da cultura, ausência de compactação e de encharcamento do solo, ausência de mato-competição e das pragas e doenças, entre outros.
Os países que integram o Mercosul são importantes produtores de alimentos, principalmente grãos e carnes, e têm no segmento agrícola a sua maior força. Em todos eles, a soja se constitui no principal produto de exportação. O crescimento da produção da oleaginosa nessa região é digno de registro. Sem exceção, os quatro países tiveram aumentos de produção espetaculares, incluindo o Uruguai, o mais recente membro do clube da soja, que partiu de uma produção insignificante em 2001 (28 mil t) e ao final da década alcançou a produção de quase dois milhões de toneladas (1,8 milhões t).
E o mais gratificante é poder afirmar que é possível crescer sem temer o excesso de oferta de soja e a consequente queda nos preços, porque o mercado será francamente comprador nos próximos anos, como resultado do crescimento da renda per capita dos países em desenvolvimento e o consequente aumento no consumo de carnes, que têm na soja a principal matéria-prima para produzi-la. A recente frustração parcial da safra de soja na região por causa da estiagem, tem mantido os estoques de passagem em níveis muito baixos, o que fortalece o quadro de preços altos, que incrementa a lucratividade, que é muito mais importante que a produtividade. Para um produtor de região de alto risco climático (Oeste do Paraná, por exemplo) poderia ser racional e estratégico investir menos em insumos de produção, optando por uma produtividade menor, mas também, por um prejuízo menor, na eventualidade de ocorrer uma estiagem.
AMÉLIO DALL'AGNOL é engenheiro agrônomo em Londrina





