ESPAÇO ABERTO
Fechar os olhos por um instante
Quando nós, cidadãos londrinenses do século 21, pensamos em nossas dificuldades cotidianas e reclamamos dos problemas que nos afetam, é útil fazer um simples exercício mental: fechemos os olhos por um instante e imaginemos esta região do País há 70 ou 80 anos. Uma terra promissora, mas também inóspita. Uma terra de oportunidades, mas também de perigos. Uma terra de trabalho, mas também de carências. Uma terra de conquistas, mas também de sofrimentos. Uma terra de ninguém que virou terra de todos.
Hoje nós temos problemas de saúde decorrentes do estresse diário e do sedentarismo. Mas houve um tempo em que a saúde por aqui vivia perigos incomparavelmente maiores. O único hospital era pequeno; os recursos, minguados; a tecnologia, rudimentar. A esperança vinha a cavalo, na forma de anjos vestidos de branco, anjos que possuíam olhos clínicos e mãos capazes de curar. Imagine-se o estresse enfrentado pelos pioneiros nos tempos em que essa palavra nem sequer existia!
Hoje nos preocupamos com os efeitos da desindustrialização - e temos motivos de sobra para isso. Mas o que dizer daqueles que ousaram implantar suas fábricas no distante, desconhecido, quase inimaginável Norte do Paraná, que pouco tempo antes era apenas o mitológico Sertão del Guayrá? Hoje nós queremos realizar parcerias público-privadas, o que demanda coragem e determinação. Mas o que dizer da ousadia da Companhia de Terras Norte do Paraná, que promoveu a maior colonização de iniciativa privada em todo o planeta? A parceria público-privada - que também não tinha esse nome - está no DNA londrinense. Ela é a nossa origem.
Hoje nós fortalecemos a representação das mulheres no setor produtivo. Mas o que dizer daquelas pioneiras que seguiram ao lado de seus homens nos momentos mais difíceis, quando tudo era mais precário, quando tudo era mais distante, quando os sacrifícios de cada dia eram mais pesados que o tronco de uma figueira-branca?
Hoje nós planejamos o Arco Norte, um novo ciclo para o desenvolvimento de Londrina. É uma tarefa árdua, complexa e delicada. Mas o que dizer daqueles que criaram o ciclo de desenvolvimento de uma cidade quando ainda não existia... a cidade? O que dizer daqueles que acreditaram na produção quando não havia... consumidores? O que dizer daqueles que acreditaram em novos caminhos quando não havia... estradas? O que dizer daqueles que resolveram morar no sertão quando não existiam... casas? O que dizer daqueles que planejaram com clareza e tiveram ideias luminosas quando não havia... luz?
Certamente, nos tempos pioneiros, havia os que reclamavam da vida. Existiam também os que torciam contra. A Vica (sigla composta por vaidade, inveja, ciúme e arrogância) não foi inventada ontem. Mas não foram os resmungos que passaram à história. Não foram os agourentos que triunfaram. Os vaidosos, invejosos, ciumentos e arrogantes não tiveram a última palavra - e jamais conseguirão tê-la. A construção de uma cidade não se faz sem bases sólidas de cooperação, amizade e valores compartilhados.
Houve um tempo em que Londrina não tinha luz, nem água, nem asfalto, nem prédios, nem carros, nem estradas, nem lugar no mapa. Mas havia algo de sobra: esperança. E da esperança veio a disposição, e da disposição veio o trabalho, e do trabalho veio a cidade que aprendemos a amar.
Por isso, nos nossos momentos de desânimo e nas horas de dúvida, vale pensar na coragem, na abnegação, na renúncia, na persistência, na união dos pioneiros e pioneiras de Londrina. De vez em quando, pode ser que eles tenham se deixado levar pelo abatimento. Desbravadores também ficam tristes, sofrem decepções e pensam em desistir. Mas depois se reanimam - e voltam a escrever a história com a tinta do suor.
Fechemos os olhos por um instante e pensemos em tudo que eles construíram. Assim será impossível desistir.
NIVALDO BENVENHO é presidente da Associação Comercial e Industrial de Londrina (Acil)





