ESPAÇO ABERTO
As lições da Alemanha
No ano 9 D.C. as poderosas legiões romanas tentaram subjugar uma região chamada de Germânia, mas as tropas invasoras acabaram sendo emboscadas e aniquiladas. Mais de 15 mil legionários morreram nesse combate. Roma então decidiu recuar do seu objetivo de conquistar aquele insignificante território. A Alemanha é hoje, sem dúvida, um caso bem interessante para ser analisado. O País, com quase 82 milhões de habitantes, é atualmente um dos mais sólidos membros da comunidade europeia.
Parece que superar dificuldades faz parte da história desse país, que saiu enfraquecido de duas grandes guerras e hoje se mostra um dos mais estáveis e confiáveis países da Europa.
A unificação das duas Alemanhas, em 1990 com a queda do famoso muro, foi também um fator que trouxe muitas dificuldades para o país. Nivelar duas regiões completamente distintas, uma moderna e rica, outra atrasada e pobre, levou mais de dez anos.
O país tem algumas características bem interessantes; com fama de sistemáticos, os alemães são um povo que têm o hábito de economizar seu dinheiro. A poupança alemã chega a mais de 11% do seu PIB, enquanto a família brasileira, que não vive sem uma prestação, não chega a poupar 5% do nosso PIB.
Outro ponto muito interessante é que enquanto a maioria dos países luta para competir contra a invasão dos produtos chineses, sem muito sucesso, como no caso do Brasil, a antiga Germânia foca sua produção e exportação em produtos para empresas e que ainda não foram replicados pelos asiáticos, como máquinas pesadas, turbinas, geradores e produtos químicos.
Apesar da fama de metódicos e sisudos, os alemães tiveram mais jogo de cintura do que os descontraídos e alegres brasileiros, e quando perceberam que a crise poderia contaminar sua economia, trataram de flexibilizar sua legislação trabalhista, permitindo contratos temporários, redução de jornada, criação da meia jornada com remuneração proporcional e regulamentaram o banco de horas, permitindo que suas empresas conseguissem ajustar sua produção.
Com essa reforma trabalhista, que começou em 2003, a Alemanha está conseguindo manter seu nível de desemprego entre os mais baixos do continente. Na mesma linha de evitar o pior, o país, que tem uma carga tributária similar à brasileira, tem feito uma dura redução nos seus gastos públicos, mantendo uma gestão rígida sobre os gastos e inclusive reduzindo o orçamento de programas sociais.
Apesar das medidas duras, o resultado é que Alemanha é hoje a 4º maior economia do planeta com PIB de 3,6 trilhões de dólares, ficando em 17º em PIB per capita, enquanto o Brasil, também entre as maiores economias, amarga um 74º lugar em PIB per capita, ou seja, somos um país rico, com um povo pobre.
Outra grande estratégia do povo alemão é bem óbvia, investir em educação; com um sistema educacional que funciona muito bem, os trabalhadores alemães têm um alto de nível de especialização e produtividade. O Brasil, no ranking produtividade, está em 45º, enquanto isto, nossos amigos alemães estão em 7º; nada mal para um país que estava completamente arrasado 60 anos atrás.
O Brasil ainda tem dificuldade para entender que para se fazer omelete é preciso primeiro quebrar alguns ovos. Sem uma verdadeira reforma no nosso fraco sistema educacional, sem uma reforma no nosso rígido sistema trabalhista e sem uma completa reforma no nosso labiríntico sistema tributário vamos continuar vivendo a reboque do sucesso de outros países. Mas para que essas reformas todas sejam realizadas com profundidade e seriedade, seria preciso fazer primeiro uma outra grande reforma, transformando nosso sistema e nossa cultura política.
A Alemanha não é um país perfeito, mas é um bom exemplo de que não existe país imune às crises, mas existem países que buscam enxergar, reagir e resolver rapidamente seus problemas.
DENILSON VIEIRA NOVAES é especialista em gestão pública e servidor público em Londrina





