Vivemos tempos de grande agitação por parte da ciência e pelas ações políticas decorrentes. Aquilo que se convencionou chamar de crise, ganha forma e forte significado. Penso em crise no sentido Gramsciano: onde o passado já se foi e o futuro ainda não se apresentou. Esse tempo nasce de uma conjunção de fatores que podemos chamá-lo de travessia civilizatória. Ao refletirmos sobre a dinâmica que produziu a forma de viver de nossa modernidade capitalista, percebemos que o surgimento e o desenvolvimento de estilos, maneiras e comportamentos marcam e modelam feições humanas nem sempre condizentes com nossa evolução, como seres conscientes.
Caímos num abismo profundo, e continuamos a cair. Poucas são as formas de nos firmarmos num ponto, onde assentados podemos parar, refletir e avaliarmos. Essa queda desconstrói toda possibilidade, desconstruindo o turbilhão nos engole e, quase toda a dinâmica que nos move, nos leva a outras vertentes.
Necessitamos fixar nosso tempo para avaliarmos os tempos passados e projetar os tempos futuros. Nesse projetar aparecem e se evidenciam as incertezas, as dúvidas, os riscos. Mas, também, há horizontes de luz, claridade, esperança.
Entre o encantamento e o desencantamento do mundo nos encontramos para um debate, pois, ainda existem espaços para o debate. O que fazer, como fazer, por onde andar, com quem andar? Até onde podemos chegar? Não obstante, o eixo que nos move é o estabelecimento de uma ciência que propicie qualidade de vida e felicidade para todos.
Conjugar ciência com qualidade e felicidade, como dizia o filósofo Paracelso, parece coisa pequena para aqueles que imaginam que todos os frutos amadurecem ao mesmo tempo como as cerejas, mas, pouco sabem a respeito das uvas. Entretanto, há muito saber a ser absorvido nessa travessia, os arquétipos e traçados começam a se configurar. Essa configuração nos obriga a pensar formatos paradigmáticos que ultrapassem o paradigma dominante moderno, que divide, atomiza, fraciona, degrada, exclui. Posto que a compreensão de hoje exige que se relacione todas as manifestações da vida humana com todas as demais existentes. Um mapa que trace linhas de coexistência do todo e das partes e que recupere o encantamento que o formato dominante tende a obstruir.
As experiências apontam que o modelo de organização civilizatória não é bom para ninguém. Apesar de somente poucos se apropriarem, será destrutivo para todos, pois pelo planeta ser pequeno, circular e dinâmico tudo depende de tudo. Nosso tempo é caracterizado pela ação sem reflexão, precisamos de ação com reflexão somando-se a novas experiências humanas. Dessa forma, construir democracias de alta densidade, de qualidade, de prudência, de equilíbrio, de cuidado.
Estamos diante de uma travessia - de outro tipo de civilização - de um novo paradigma de produção, de conhecimento, de realidade, de vida. O horizonte de esperança está em nossa frente e somente aos homens de nosso tempo caberá essa definição. Temos a capacidade científica de escolha, o que fazer e como fazer. A ética da vontade coletiva é o que nos balizara em o que escolher e como escolher. A crença incessante de um futuro melhor para a vida humana e toda e vida existente no planeta nos move. Uma crença que um novo modelo de ciência que contemporize inúmeros aspectos holísticos se configura cá e lá, com resistências e descrenças, mas também com otimismo e superação.

PAULO BASSANI é sociólogo ambiental e professor na Universidade Estadual de Londrina

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