ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
sábado, 14 de abril de 2012
Clodomiro José Bannwart Júnior 
Reza a lenda que Demóstenes, o maior orador da Grécia antiga, alcançou reputada posição depois de vencer a gagueira. Seus discursos visavam proteger Atenas das constantes ameaças de Felipe da Macedônia. Ainda que tenha lutado com as armas da linguagem e, também, com a força física, resultou inglorioso o seu destino e de toda a Grécia. Demóstenes se suicidou e a Grécia caiu sob o domínio macedônio. Os cidadãos gregos foram transformados, sem piedade, em súditos de um império que marcaria o prenúncio da dominação romana. Demóstenes - aquele que representa a força do povo - foi divisor d'água entre o período clássico e o chamado Helenismo. Baluarte da democracia, ele viu a mesma se perder.
O Demóstenes brasileiro guarda semelhanças com o homônimo do passado. O Demóstenes daqui sempre se apresentou na tribuna do Senado como grande orador, dotado de erudição jurídica, voz afiada na denúncia de falcatruas públicas, bastião da moralidade e inaudito defensor das instituições do Estado de direito. Os discursos não se sustentaram diante dos fatos, fazendo despencar o senador, a credibilidade institucional do Senado e o próprio partido. A sua queda marca mais um episódio contraproducente colhido pelos Democratas.
O DEM é o mais mutável dentre os partidos brasileiros. Padece de uma história contínua e de viva memória, cuja posição ideológica busca sempre sepultar no esquecimento. Na sua origem, pós-golpe militar de 1964, constituiu-se como Arena, sustentáculo sem lastro democrático dos militares no poder. Transformou-se em PDS na reta final do regime militar. No processo de redemocratização buscou se recriar como PFL. Tentou sem sucesso a Presidência da República por meio do voto popular, em 1989. Assumiu mais tarde a posição de fiel escudeiro do PSDB, durante os anos do governo FHC. Na oposição do governo petista, manteve continuamente a bateria aquecida com muito barulho e pouca ação. Em 2007, nova mutação genética dá luz ao DEM. Por ironia, a sigla ''Democratas'' expõe como bandeira aquilo que precisamente negaram na origem: a democracia.
O partido, nas suas distintas versões, demonstra debilitada coesão ideológica e a cada novo renascimento assume o ônus de se desvencilhar do passado. A carência de estofo nacional com atores capazes de assegurar legítima representação além dos interesses regionais, sempre foi um problema à sigla. Representou, quase sempre, uma estrutura frágil com dificuldade de traduzir interesses sociais articulados, além de baixíssimo enraizamento social. Porta-se como uma Fênix, sempre apta a renascer das cinzas nos momentos oportunos.
Contudo, o recente histórico dos ''Democratas'' já registra três baixas significativas. A primeira ocorreu em 2009, com a prisão do então governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda, único governador do partido na época. O renovado DEM teve sua imagem arranhada nas eleições de 2010.
Em 2011, o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, expoente da nova safra de políticos ''demos'', mostrou novamente o deficit ideológico do partido. Ao deixar a sigla para criar o PSD, levou consigo parte expressiva da vanguarda ''democrata'', além de velhos caciques cansados com a dura vida de oposicionistas.
Já fragilizado e encolhido no Congresso, o partido é de novo nocauteado com a perda do senador Demóstenes Torres, um dos mais destacados integrantes de sua bancada, sempre notado pela opinião pública por sua firme postura a favor da ética.
O suicídio político de Demóstenes só abona a ingloriosa sina do DEM. Apesar de não selar definitivamente o destino do partido, deixa-o numa encruzilhada: seguir o curso da tragédia ou ressurgir novamente das cinzas como uma Fênix. Para a última opção é preciso que antes o partido sobreviva às eleições municipais deste ano.
CLODOMIRO JOSÉ BANNWART JÚNIOR é professor de Ética e Filosofia Política na Universidade Estadual de Londrina


