ESPAÇO ABERTO
O policial que via Deus
Quando li a matéria ''Pressão leva PMs a cometerem abusos'' (Reportagem, 18/3), lembrei-me de um fato ocorrido alguns anos atrás, no qual atuei enquanto profissional de saúde mental. Para resguardar o sigilo profissional, preservarei o nome dos envolvidos e o local da ocorrência.
Os problemas descritos na matéria são reais e atingem também outras instituições de segurança, além da PM, sendo inerente à natureza da atividade policial, que é uma das mais estressantes. Está relacionado à sensação de viver no limite entre a vida e à morte, fator que gera distúrbios psicoemocionais e físicos e predispõe à prática de atos impulsivos numa formação reativa à própria violência.
Colocado pelo dever institucional e legal para mediar conflitos que originalmente não são os seus, o policial se vê situado entre o drama real e o drama simbólico, sendo o real o conflito do outro, a violência das ruas, a frieza da morte que se refletem na sua subjetividade interna. Sendo antropho, o policial tem uma história pessoal, familiar e social, enfim uma cultura. Tem sentimentos e sofrimentos.
Pressionado psicologicamente racionaliza e sublima, recorrendo a uma realidade separada (simbólica) para resistir às pressões. Além de ter que lidar com a irracionalidade do ser humano expressa na forma da violência, ainda tem que lidar com a realidade da indiferença e até da discriminação. O seu agir é julgado, o seu não agir é condenado. É idolatrado e ao mesmo tempo menosprezado. Há quem diga: ''É um mal necessário''.
No caso ao qual me referi no início, um policial atuante na área da repressão ao tráfico de drogas, durante uma operação rotineira, acorreu ao seu superior, em pânico, dizendo-se perseguido pelos colegas que intencionavam matá-lo. Quem o alertara do suposto perigo era ninguém menos que o próprio Criador, o Pai Celestial. Os amigos sabiam que ele não era ''santo'', logo, se via Deus e falava com Ele, só podia estar louco.
Nos dias subsequentes, por ter abandonado o seu posto de trabalho, recusar a entrar na viatura e por sacar a arma e ameaçar colegas, foi punido com o afastamento das funções enquanto respondia a uma sindicância administrativa, mas não foi encaminhado para avaliação médica e psicológica. O drástico resultado dessa negligência não tardou a se manifestar. Dias depois, acometido por um surto, em delírio paranóide, disparou a esmo em frente a uma delegacia, rolando pelo chão e escondendo-se embaixo das viaturas, felizmente não atingindo a ninguém. Só então o caso tomou a devida dimensão e o profissional foi encaminhado para os cuidados com a saúde.
Esse lamentável episódio repercutiu intensamente na instituição e motivou o desencadeamento de um trabalho de pesquisa envolvendo profissionais das áreas de saúde, educação e social, além de colaboradores da própria instituição policial, culminando num fórum sobre ''A saúde mental do profissional de Segurança Pública'', oportunidade em que se discutiu a total ausência de políticas de prevenção nessa área. Constatou-se, porém, que implantar qualquer trabalho nesse sentido requer muita persistência para romper as barreiras do preconceito institucional, firmadas sobre o mito da indestrutibilidade do policial e na crença na invulnerabilidade do ''poder'', não do poder legal de polícia, mas de um poder que perpassa a razão e resgata a força primitiva do guerreiro.
Essa distorção inconsciente e historicamente enraizada no meio e incorporada por grande parte dos profissionais, mesmo nos mais elevados escalões, é a base da resistência aos esforços de se implantar serviços voltados à qualidade de vida ou a não fazerem uso dos recursos disponibilizados, minimizando o empenho dos gestores. Desde 1997, com a criação da Secretaria Nacional de Segurança Pública e a implementação das novas abordagens na formação profissional, disponibilização de cursos e fóruns on-line, da valorização da interface polícia/comunidade, possibilitando novas compreensões acerca do fenômeno do recrudescimento da violência, melhoramos, mas ainda estamos muito aquém de termos os profissionais de segurança que necessitamos, bem como de termos a segurança com a qualidade pela qual pagamos.
JAIR QUEIROZ é psicólogo clínico e pós-graduado em Segurança Pública em Londrina





