ESPAÇO ABERTO
Extinção das torcidas organizadas
Mais uma vez as torcidas organizadas em vários Estados da Federação promoveram violência, quebra-quebra, destruição de ônibus, homicídios e inúmeros outros atos vandálicos e criminosos. Não é possível que essas torcidas organizadas permaneçam agindo como agem, em total desrespeito aos torcedores pacatos e a todo o restante da sociedade ordeira.
O Poder Público investe dinheiro e tempo para tentar conter as ações criminosas desses bandos intitulados de torcidas organizadas. A cada jogo, não necessitando ser um clássico, uma centena de policiais civis e, principalmente, militares são deslocados para os estádios de futebol e próximo aos seus entornos para tentar reduzir os atos criminosos que antecipadamente os membros dessas torcidas já anunciaram que iriam realizar.
É inaceitável elas continuarem existindo como entidades jurídicas. Essas torcidas organizadas não são grupos mas sim bandos, parte de seus líderes manipulam um grande contingente de jovens com psiquismo fluídico, que para Freud, pai da psicanálise, são aquelas pessoas que seguem a orientação do grupo, não fazem uma filtragem nas ações a serem praticadas, pois são indivíduos extremamente influenciáveis, os quais tanto podem ser conduzidos para ações benevolentes como para comportamentos perversos.
Esses jovens querem ter um lugar de pertencimento, fazendo com que muitos busquem as torcidas organizadas. Como alguns de seus líderes são indivíduos com personalidades perversas, facilmente manipulam seus subordinados para essas conhecidas ações nefastas.
Também não se pode esquecer o que Freud e outros estudiosos do psiquismo humano já expressaram, o grupo formado pela multidão produz um psiquismo próprio, muitas vezes anulando o ''eu'' individual. Isso significa que a mentalidade do grupo é que irá nortear o comportamento daquelas pessoas. A submissão à emoção torna-se extraordinariamente intensificada, enquanto a sua capacidade intelectual é acentuadamente reduzida.
Gustave Le Bom, igualmente pontuava que sobre certa condição grupal o indivíduo sente, pensa e age de maneira completamente diferente daquela que se apresentaria se sentisse, pensasse e agisse e estivesse sozinho. Para Le Bom, as características comuns apresentadas por um indivíduo em isolamento somem num grupo, fazendo com que sua identidade se desfaça.
Mc Dongall asseverava que quanto mais grosseiros e simples são os impulsos emocionais, mais aptos se encontram a propagarem-se através de um grupo.
Como a recomendação sinaliza ações violentas, destruição de tudo e de todos, a balbúrdia acaba se instalando, ficando a segurança pública encarregada para minimizar aquilo que todos sabem que irá acontecer.
Não significa que todos os líderes das torcidas são manipuladores, cruéis e avessos às normas de uma boa convivência e nem que todos os demais componentes sejam jovens facilmente influenciados. Porém, mesmo existindo líderes e componentes de torcidas organizadas que buscam apenas torcer para o time do coração, o que ocorre é que essas pessoas ''bem-intencionadas'' não conseguem conter uma grande parcela que lá busca proteção e pertencimento para transitarem sobre a ética dos não éticos.
Com a extinção das torcidas organizadas esses bandos não terão espaço para procriarem, se sentirão mais fragilizados para agirem sozinhos ou em pequenos grupos, consequentemente a violência irá diminuir, não acabará, mas deverá sofrer redução significativa.
É preciso extirpar as torcidas organizadas para que possamos fazer do esporte mais popular do mundo tão-somente um esporte apaixonante e não um palco de guerra. Para isso, as federações de futebol, os clubes, os órgãos de segurança pública, o Ministério Público e o Poder Judiciário devem ter o desejo de colocarem uma enorme pedra nesses bandos desordeiros.
LUIZ EDUARDO CANTO DE AZEVEDO BUENO é psicólogo e procurador de Justiça do Ministério Público do Paraná





