A morte de Chico Anysio me fez voltar para algumas reflexões. A vida é repleta de sedução. Os bens materiais são oferecidos como sinônimos de felicidade. O rótulo é elegante e atraente. Há um discurso bem arquitetado e executado. O marketing é eficiente. Fascina e atinge o limbo do espírito humano. A facilidade de manipular os desejos e a vontade das pessoas e a exploração de suas fraquezas respondem por expressiva parte da inversão de valores.
Significativa parcela das pessoas nunca está totalmente satisfeita e contente com o que tem. Ambiciona sempre mais. O capital globalizado e sua poderosa propaganda orientam sobre o que se deve consumir. Incentivam a gastar o que se tem para comprar o que querem vender e não exatamente o que as pessoas precisam ou escolheriam se não fossem influenciadas de forma tão insistente e maciça.
Nosso cérebro é permeável a sugestões e sutilezas. A supervalorização monetária e de tudo que se pode comprar com o dinheiro, com a priorização da dimensão econômica da vida, é muito forte nas sociedades pós-industriais. Colocam em plano secundário a qualidade de vida, o bem-estar geral e as coisas que não são passíveis de avaliação econômica (caráter, honra e dignidade, por exemplo).
O homem tem-se tornado seu próprio predador, hedonista, egoísta, rebelde, descumpridor das leis e indiferente com o sofrimento alheio. Muitos têm apresentado sintomas de que perderam a capacidade de ver o mundo e a vida por inteiro e tudo de rico que têm, como se o seu potencial intelectual e cultural estivesse embotado. Veem a árvore, mas não conseguem ver a floresta. Sustentam a ideia de permanente e irrenunciável necessidade de crescimento econômico, independentemente de outras variáveis, circunstâncias e contextos. Ignoram os direitos sociais e a essencialidade do lazer e da recreação, do convívio com familiares e amigos. Pensam somente em prejuízos de ordem econômica.
Os benefícios proporcionados à qualidade de vida e a valorização de variados aspectos humanos, tão fundamentais à vida, ou até mais, que o crescimento material e o acúmulo de mais dinheiro, para eles, são irrelevantes e não devem entrar nesta equação. Não são poucos os que compartilham as mesmas ideias, linguagem e discurso ideológico.
De que vale tudo isso quando nos deparamos com uma doença grave, quando se morre jovem por motivos que podiam ter sido evitados através de medidas preventivas, e quando nos convencemos da fragilidade e da finitude da vida, que pode ser ceifada até mesmo de forma estúpida e nunca imaginada.
A vida vai muito bem, para a maioria das pessoas sadias, com alguns cuidados com a saúde e a alimentação, pelo menos até os 60 anos. Acidentes de percurso não contam. Depois disso, entramos em visível declínio físico, mais alguns anos e entramos na fase de decadência e, finalmente, definhamos, até que a morte nos abrace para sempre. A natureza é sábia e tudo nela é perfeito.
É como se Deus estivesse nos lembrando, a todo instante que, ao mesmo tempo em que temos uma enorme capacidade de transformação e realização, somos muito frágeis e não somos donos de nossas vidas. Nada podemos fazer para viver eternamente, para nos safar das doenças graves, ainda incuráveis, e para enganar a morte.
Os bens materiais que conquistamos não são levados para o túmulo. Não há lugar para eles no mundo espiritual (extensão da vida?). Proponho que abandonemos a vaidade, a empáfia e a arrogância. Sejamos mais sábios e humildes. Nossa principal e essencial herança consiste em integridade de caráter, honra e dignidade; em nossas obras, nas contribuições que deixamos para as atuais e futuras gerações, nas realizações que beneficiam mais que a nós mesmos, no conhecimento e experiência partilhados e nos exemplos de bondade, caridade e generosidade.

MAURO VASNI PAROSKI é juiz do Trabalho em Londrina, escritor e mestre em Direito pela Universidade Estadual de Londrina

- Os artigos devem conter dados do autor e ter no máximo 3.800 caracteres (55 linhas) e no mínimo 1.600 caracteres (25 linhas). Os artigos publicados não refletem necessariamente a opinião do jornal. E-mail: [email protected]

mockup