ESPAÇO ABERTO
Violência real e simbólica
Um dos temas mais preocupantes da atualidade é a segurança pública, ou seja, a violência decorrente da falta de uma política pública capaz de proteger o cidadão. O tema violência gera debates acalorados e muitos segmentos defendem o aumento de vagas em presídios e da frota policial para garantir a ordem. Isso está mais para segurança patrimonial e menos para política pública de segurança, que envolve muitos mais aspectos.
Como combater a violência se o ser humano é violento por natureza? Socialmente aprendemos que temos de ser equilibrados e resolver nossas querelas com diplomacia e elegância, mesmo que sob o terno e a gravata ou a maquiagem e a saia, a vontade seja resolver a situação no braço. A violência chama a atenção e tem fãs cativos. Lembram-se das fotografias que correram as caixas de e-mails com imagens do acidente dos Mamonas Assassinas? E as fotos do deputado paranaense também morto em um acidente aéreo?
Mais que contemplar cenários de violência, o ser humano estabelece um padrão ideológico diante da agressão do outro. Um exemplo? Para muitos, o ataque palestino às forças de Israel é terrorismo, enquanto o ataque israelense a territórios palestinos é contraofensiva. Em ambos os casos, trata-se de violência, mas cada um dos lados tem argumentos para suas posições e causas.
A violência é, portanto, real e simbólica. Real porque existe e faz vítimas (das quais gostamos ou não gostamos). Simbólica porque cria significados ao sabor das ideologias, fazendo crer que uns merecem morrer e outros são apenas vítimas. No Brasil, queimar mendigos (atitude reprovável sob qualquer aspecto) não é um ato isolado nem efeito colateral de uma sociedade sem valores éticos e morais. Para muitos, esse é o valor ético e moral, ou seja, o cenário é ainda pior.
A agressão aos direitos humanos é milenar e, talvez, hoje tenhamos um dos períodos mais tranquilos da história da humanidade. Jogar cristãos aos leões e queimar mulheres acusadas de bruxaria não são contos de fadas. A sociedade cultiva a violência porque gosta dela. E nesse culto, a cultura midiática é pródiga na produção e na difusão da violência. Preciso citar o cinema e as novelas?
E o jornalismo, enquanto produtor de sentidos e significados, também tem sua parcela de responsabilidade. A cobertura está mais para as consequências e menos para as causas. Exemplos de manchetes? Mulher é morta a pauladas pelo companheiro. Mototaxista é assassinado a tiros. Pai espanca esposa na frente dos filhos. Ladrões explodem caixa eletrônico.
Esse tipo de cobertura factual também ajuda a consolidar a cultura da insegurança, semeando medo e pânico. E muito empresário lucra com isso, como fabricantes de cercas elétricas, empresas particulares de segurança, entre outros. A violência existe e não pode ser negada, mas sua realidade também é superdimensionada na cultura midiática e ganha status de espetáculo. Se é um show, então existe um tripé: o produtor, o que transforma o acontecimento em notícia; o espectador, que no almoço saboreia assassinatos; e o anunciante, financiador do espetáculo e vendedor de tudo em programas policiais que exploram, principalmente, a violência contra os pobres.
A violência midiática expõe principalmente a imagem do pobre com a conivência dos organismos policiais. É comum bandidos pobres serem expostos no horário nobre, numa sala da delegacia, com o titular dando detalhes da prisão. O mesmo não acontece, na mesma proporção, com o bandido rico que, quando é preso, negociou antes - por meio de advogados caros - a sua entrega.
Se a sociedade - do cidadão comum à autoridade - participa da construção de uma cultura de violência, pode muito bem construir uma cultura que seja melhor para todos. E essa cultura começa pela educação dentro de casa; passa pela escola e pela igreja; percorre instituições públicas e privadas de todas as áreas. A responsabilidade de criar e consolidar uma cultura de não violência depende de uma atitude individual, mas pede uma ação coletiva.
REINALDO CÉSAR ZANARDI é jornalista, professor e coordenador do curso de Jornalismo da Unopar





