No mês de janeiro estive no Banco de Leite do HU, acompanhando minha filha, e uma situação entristeceu-me, sobremaneira. Uma mãe estava realizando a retirada do leite para doação e, ao conversar com ela, fiquei sabendo que seu bebê, de apenas oito dias, nasceu prematuro e ela devia permanecer no hospital para amamentar; também ela estava em observação, devido à pressão alta. Vi seus pés muito inchados. Não podia ver seu rosto, porque usava máscara higiênica protetora. Via apenas seus olhos e, por meio deles, ela me parecia uma garota nova, de pouco mais de 20 anos. Perguntei se era seu primeiro bebê, ao que ela respondeu que era o quarto. Comentei que parecia muito nova para já ter quatro filhos e ela relatou, com satisfação e, talvez, com orgulho, que teve o primeiro aos 16 anos de idade. Sua idade: 25 anos. Das condições em que deixou seus outros três filhos em casa, não fiquei sabendo, mas dá para imaginar.
  Ela possuía a documentação para fazer uma laqueadura, mas não pôde fazer, porque a mesma teria de ser realizada dentro de 48 horas e, nesse período, não houve vaga no centro cirúrgico do HU. Segundo ela, restava-lhe entrar na fila das Unidades Básicas de Saúde para colocação do DIU. Vejo aí grande possibilidade de uma quinta gravidez. Enquanto isso, com 30 anos, minha filha, pós-graduada, estava tendo seu primeiro bebê. Era acentuada a discrepância que se colocava diante dos meus olhos. Nada soube a respeito do nível escolar daquela mãe, jovem, com quatro filhos, mas é muito provável que nem tenha o Ensino Médio, devido à idade em que teve sua primeira gestação e à aparente situação de pobreza. Perguntei-lhe, ainda, se já havia pensado na possibilidade de seu marido fazer vasectomia, ao que ela, rapidamente, respondeu: ‘‘Não posso nem tocar neste assunto, porque ele ‘vira um bicho’’’.
  Sabemos que quanto maior o número de filhos, menos satisfatória é a atenção para com a educação e menor é o cuidado e o zelo que pais e mães podem dedicar a cada filho.
  Pergunto, então: que bancos escolares frequentaram aquela mãe e aquele pai, que não lhes oportunizaram aprender sobre os métodos contraceptivos, que não discutiram nem refletiram sobre os mitos e preconceitos que cercam cada um deles, sobretudo a vasectomia? Que escola foi aquela que não criou espaço para se debater sobre o machismo que assola as relações humanas, em especial, as familiares? Ou os órgãos públicos responsáveis pela educação municipal e estadual acordam de vez para a Educação Sexual ou continuaremos a ver mais e mais vidas surgindo sem o devido planejamento e sobrecarregando nosso sistema educacional e de saúde.
  Integrada à educação como um todo, desde a Educação Infantil, a Educação Sexual pode auxiliar na redução da superpopulação que é um problema social grave, o qual não podemos ignorar se nos preocupamos com o meio ambiente. Contudo, mais do que isso, a Educação Sexual ajuda as pessoas a serem felizes, pois diz respeito a: relações igualitárias, bem-estar, saúde, planejamento familiar, projeto de vida, ausência de violência e de discriminação. Não dá mais para esperar.
  Ser mãe não pode continuar sendo o único projeto de vida de nossas adolescentes, sobretudo as pobres. É urgente incentivá-las e orientá-las para que construam um projeto de vida consistente, com metas a curto e a longo prazos, pois até para ser mãe dedicada e responsável, é preciso estar bem consigo própria, ter assegurada a sua realização pessoal e profissional, crescendo sempre como mulher.

MARY NEIDE DAMICO FIGUEIRÓ é psicóloga, doutora em Educação e docente aposentada da Universidade Estadual de Londrina

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