Humanização dos profissionais da saúde
Na aula inaugural da 1 série, de 2007, do curso de Medicina da UEL, falou-se em ''diminuir a obesidade tecnológica e a desnutrição humanística na saúde'' e, consequentemente, da formação de ''profissionais mais humanos'' (Folha Cidades, 7/3/2007). Nessa ocasião pensava-se na contribuição da arte.
Sem dúvida a arte deve ter espaço na formação dos profissionais da saúde, de tal modo a serem, na medida do possível, também flautistas, bateristas, violonistas, cantores... Terão mais humanidade... Além disso, serão instigados a buscar a perfeição artística no seu trabalho: criar ''monalisas'' em termos de promoção da qualidade de vida.
Pode-se pensar também, em termos de humanização, na contribuição das outras formas de conhecimento, para além da forma científico-técnica e da forma artística.
Há que se cobrar sempre o bom senso, que, segundo Gramsci, constitui o lado melhor, o núcleo mais sadio do senso comum. É inegável que a falta de bom senso traz consequências desastrosas.
Temos que estimular também o aproveitamento do melhor do clima de paixão próprio do mito. Seria pior trabalhar com ódio ou com indiferença? O melhor é com amor! Amor à vida, amor aos outros, amor ao universo do qual somos partes!
Esse envolvimento mítico nos engaja em cruzadas que acreditam na superação da morte! O que possibilita muitas curas. Ah! Os mitos da vida, da vida eterna, da felicidade, são sempre atuais e não desnecessários.
E a religião, a inquirição da ligação com a origem e com o final? A pergunta pelo sagrado? Os pacientes que têm fé têm mais chance? A oração tem poder? Deus ajuda? O universo é contra ou a favor? Para ser mais humano é necessário pensar no Divino, na divinização?
Mas todas essas possibilidades e perspectivas devem ser integradas em uma visão de conjunto a favor de todos. Para tanto, é necessário invocar também a razão filosófica. Nesse sentido, colhamos o testemunho do filósofo e médico Hipócrates (+- 460-370 a.C.), aquele nada mais nada menos do que o considerado Pai da Medicina. Nas palavras de Reale e Antiseri, em Hipócrates, ''O homem é visto no conjunto em que se encontra naturalmente inserido, (...). O 'pleno conhecimento de cada caso individual', portanto, depende do conhecimento do conjunto dessas coordenadas, o que significa que, para compreender a parte, é preciso compreender o todo ao qual a parte pertence. A natureza dos lugares e daquilo que os caracteriza incide sobre a constituição e o aspecto dos homens e, portanto, sobre a saúde e sobre as doenças. O médico que quer curar o doente deve conhecer precisamente essas correspondências. (...) as instituições políticas também incidem sobre o estado de saúde e as condições gerais dos homens: (...) A democracia, portanto, tempera o caráter e a saúde, ao passo que o despotismo produz efeitos opostos.''
Enfim, continuando ainda com as palavras de Reale e Antiseri, parece que a humanização da qual necessitamos pode ser pedida a partir da recordação do próprio juramento hipocrático feito pelos médicos na formatura: ''Hipócrates e sua escola não se limitaram a dar à medicina o estatuto teorético de ciência, mas também conseguiram determinar com uma lucidez verdadeiramente impressionante a estatura ética do médico, (...). (...), o sentido do juramento se resume numa proposta simples (...): médico, lembra-te de que o doente não é uma coisa ou um meio, mas um fim, um valor e, portanto, comporta-te em decorrência disso. Eis o juramento integralmente:...''.
Concluindo, apesar da desumanidade à qual os próprios profissionais da saúde estão submetidos, pela escassez de recursos, pelas más condições de trabalho, salariais, de segurança, de aprimoramento, etc., pertencentes a um contexto maior, ele próprio carente de humanização, eles devem ser sujeitos-chave do processo de humanização da saúde e da própria sociedade.

SERGIO TISKI é professor de Filosofia da Ciência e Filosofia Contemporânea na Universidade Estadual de Londrina

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