ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
sábado, 10 de março de 2012
Jair Queiroz 
As quatro mil e tantas substâncias presentes na composição do tabaco são responsáveis pela morte de 200 mil brasileiros todos os anos. Essa estatística, expandida para todo o globo, atinge a casa dos 6 milhões de óbitos. Mesmo com esse poder destrutivo o fumo conta com o beneplácito das leis e tem resistido bravamente às investidas dos ''ecologistas humanos'', dispostos a defender a temperança em todos os comportamentos individuais. Essa tolerância, porém, está chegando ao limite e fumar vem se tornando uma aventura e um desafio contra o bom senso coletivo.
Refletindo sobre as leis polêmicas que cada vez mais restringem a liberdade dos fumantes, lembrei-me de um julgamento ocorrido no período da Inquisição, que culminou na condenação de um jovem à morte na fogueira. O crime do qual foi acusado era realmente muito grave: virar lobisomem e assustar as pessoas nas cercanias - foi o que concluíram os inquisidores.
Passados 500 anos, uma pesquisadora analisou as variáveis intrincadas nesse episódio e chegou à seguinte conclusão: tratava-se de um trabalhador rural que vivia entre os campos de centeio, cereal cujas sementes produzem um fungo chamado ergot, do qual se extrai a ergotina, cujo princípio ativo é a base para o LSD 25, o mais potente alucinógeno conhecido até hoje. Nas tardes de outono o vento suspendia grande quantidade da substância e o incauto morador inalava suas doses intoxicantes. O resultado eram surtos psicóticos, com alucinações terríveis e forte paranoia. Assustado, se punha a correr gritando, babando e, segundo as testemunhas oculares, ''uivando'' como um lobo. Com tantas evidências, não restavam dúvidas: ''O elemento é mesmo perigoso, tem pacto com o capeta e deve ser queimado vivo'' - sentenciaram seus algozes.
Aparentemente o assunto acima não tem nenhuma relação com a tolerância nem com a intolerância ao tabagismo, porém, quando analisado com base na complexidade inconsciente humano, nos remete aos símbolos arquetípicos, que segundo Carl G. Jung, são imagens ancestrais que fazem parte do arcabouço que estrutura a nossa psiquê. Dentre essas figuras destaca-se a do demônio, ente espiritual temido em praticamente todas as culturas, com diferentes nomes, mas que tem em comum a capacidade de apoderar-se da mente humana, dominar os seus pensamentos e torná-los capazes da prática de atos bárbaros, assemelhando-os aos animais inferiores. Por associação inconsciente também tememos as drogas psicotrópicas pela capacidade de obnubilar a consciência de quem delas faz uso, torná-los violentos, aniquilar-lhes a razão e a liberdade, exatamente como fazem os seres míticos que povoam nosso imaginário.
Já o tabaco, embora seja uma das drogas mais deletérias ao organismo, não causa grande alteração na percepção da realidade, não produz quadros psicóticos e nem reduz a qualidade de análise intelectual e racional do fumante, logo, o inconsciente não o associa às entidades demoníacas. Na verdade, mesmo com tal virulência, o fumo só passou a ser alvo das investidas dos legisladores após ter perdido parte do seu glamour hollywoodiano, passando a ser equiparado às demais drogas, fruto das novas pesquisas científicas que deram sustentação às atuais campanhas de informação sobre seus efeitos danosos.
Essa reflexão nos ajuda a compreender certos impulsos em exercer controle sobre o comportamento humano, impulsos esses que, mediados pelas mensagens do inconsciente, atuam de forma similar aos atos de exorcismos. A realidade, porém, nos lembra que tanto o cigarro, quanto uma garrafa de destilado etílico, uma carreira de cocaína ou uma pedra de crack afetam igualmente o organismo e podem levar degeneração e morte a milhões de pessoas. Além de medidas restritivas, todas deprecam investimentos em programas de prevenção e recursos para o tratamento de suas vítimas.
Enquanto os governantes vacilam e os abnegados ''exorcistas legislativos'', continuam a propor leis esdrúxulas para impedir o domínio das ''forças maléficas'', só Deus pode dar jeito, pois o demônio continua solto.
JAIR QUEIROZ é psicólogo clínico com foco em tratamento de dependentes em Londrina


