Saúde pública e fraternidade
A saúde é direito de todos e dever do Estado, assim reza nossa Constituição. O texto Base da Constituição Federal (CF) reconhece nossos avanços na saúde. O SUS é uma conquista de grande esforço coletivo da sociedade. Para melhorar a saúde precisamos de emprego, casa, comida, educação e superação da corrupção, dos desvios ou mau uso das verbas. Saúde pública não bate com corrupção consentida. A vitória da Lei Ficha Limpa vem somar com a saúde publica.
O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) constatou em sua pesquisa que sofremos ainda com: falta de médicos, demora para o atendimento, demora para conseguir consulta, falta de hospitais, leitos, postos de saúde. Se de um lado, é dever do Estado cuidar da saúde, de outro lado, é preciso também o comprometimento do povo. No Brasil aumenta o número de idosos, crescem as doenças crônicas como hipertensão, câncer, diabete, Aids, hanseníase, obesidade, drogas, violência no trânsito. Em 2011 morreram no Brasil 489.270 pessoas de câncer. Cada ano são detectados 47 mil novos casos de hanseníase (lepra).
Daí a importância desta CF sobre saúde pública, com o fortalecimento da Pastoral da Saúde, nossa participação nos Conselhos de Saúde, o respeito à Carta dos Direitos dos Usuários da Saúde, a concretização da Conferência Nacional de Saúde. Precisamos atender melhor e com dignidade os pobres, os indígenas; e os que padecem de doenças mentais. Saúde pública exige saúde social e política. Não é justo que idosos e pobres sejam excluídos dos planos de saúde. É justo pagar o salário adequado e valorizar o trabalho dos agentes da saúde e dos profissionais.
O povo para colaborar com saúde pública tem o direito de ser orientado sobre alimentação, exercícios físicos, lazer e perigos do tabagismo, do alcoolismo, das drogas, dos cuidados com o meio ambiente. Saúde preventiva se aprende com políticas públicas e colaboração da família, da escola, da empresa, das igrejas. A indústria farmacêutica não deveria esconder o valor da medicina natural, nem explorar os doentes com mercantilização da saúde. Tudo é viciado pelo dinheiro, ganância e ambição.
A saúde é um bem-estar físico, psíquico, espiritual e social. Daí a importância dos cuidados com a dimensão emocional, afetiva, sentimental da saúde. Se os agrotóxicos, o estresse, a fome são venenos, não devemos esquecer que o afeto, o carinho, a fé, a alegria, os valores, a religião, são remédios eficazes e poderosos. Grande parte das doenças tem origem emocional.
A cultura moderna trouxe-nos tecnologia e avanços surpreendentes no campo da saúde. Por outro lado, alimenta a ''cultura da morte''. Nosso século é o ''século do medo'', principalmente o medo do fracasso familiar, do desemprego, da violência e do câncer. Este terreno é propício para o surgimento e a irrupção de espiritualismos que nem sempre são sadios, chegam a ser exploradores. Assim, só pode aumentar a depressão e a corrupção.
Como vemos saúde pública é dever do Estado e compromisso da sociedade. A Igreja, com suas pastorais, orfanatos, asilos, comunidades terapêuticas, centros de recuperação, santas casas e atendimento do povo, têm colaborado efetivamente com a saúde pública. Contribuímos com a queda da mortalidade infantil, o atendimento aos pobres, aos índios, à população ribeirinha, à mulher grávida, à adoção de crianças e adultos, à doação de sangue e órgãos. O combate à fome, a publicação dos mandamentos do motorista, a luta em favor do meio ambiente e a defesa da justiça social, a cura pela oração, a coragem profética são bens que a Igreja oferece em favor da saúde de todos.

DOM ORLANDO BRANDES é arcebispo de Londrina

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