ESPAÇO ABERTO
Tornar-se mulher
Na metade do século passado, o termo ''feminismo'' ainda não era de uso corrente. Os trágicos acontecimentos de um século antes em Nova York já haviam motivado a tradição de dedicar o 8 de março à comemoração do Dia Internacional da Mulher, mas a data ainda não era reconhecida pela ONU. Foi nesse contexto que, em 1949, Simone de Beauvoir publicou seu ensaio ''O segundo sexo'', trazendo a público a discussão sobre a condição feminina.
Não era sem propósito a publicação. Naquela época, poucos países do mundo reconheciam o direito de voto das mulheres. A igualdade de direitos entre homens e mulheres havia sido reconhecida na Carta das Nações Unidas apenas quatro anos antes, e a implementação dos direitos da mulher ainda era uma utopia. No Brasil, por força de lei, a mulher casada tinha de obter autorização do marido para trabalhar fora ou receber sua herança.
A lição essencial do livro, nós a encontramos na abertura do seu segundo volume: ''Ninguém nasce mulher: torna-se mulher''. Com esta frase, a escritora francesa rebatia toda visão ideológica destinada a justificar a assimetria social tradicionalmente estabelecida entre homens e mulheres. Definitivamente, não era uma imposição das leis naturais a inferioridade social e cultural na qual viviam as mulheres. Era, antes, o resultado de formas de convivência baseadas na desigualdade entre os sexos e na subordinação das mulheres.
Se assim era, a superação dessa condição requeria uma mudança nos padrões de comportamento socialmente criados. E essa mudança teria de ser iniciada pelas próprias mulheres, ao tomarem consciência do sentido histórico de sua condição feminina e ao agirem para modificá-la. ''Tornar-se mulher'' significava, mais do que assumir um lugar tradicional, que lhe teria sido reservado pelo destino, encontrar seu novo lugar na família e na sociedade do seu tempo.
Nos 60 anos que se seguiram muito daquela realidade da metade do século 20 já foi modificada. Nos dias atuais, ao menos no ocidente, as mulheres se destacam por ocuparem, com frequência cada vez mais acentuada, posições anteriormente reservadas aos homens. Ingressam em múltiplas áreas do mercado de trabalho, do agronegócio à construção civil. Lideram suas equipes de trabalho, suas empresas, comunidades, países. Mesmo no cenário internacional, tão arredio à mudança de tradições, ocupam posições estratégicas, incumbidas que são de chefiar estados e agências internacionais.
Transformando com sua presença o espaço público, a nova mulher também modificou para melhor o mundo privado. Deixando a posição anteriormente submissa para postar-se ao lado de seus maridos e companheiros, e hoje compartilham a responsabilidade de manter e dirigir a família. Nessa tarefa, em lugar de cultivar a cultura da competição e da prevalência de vontades, propõem a busca da harmonia e da solidariedade.
Londrina possui muitos exemplos de mulheres que não fogem à luta e vão em busca de suas realizações, em todos os setores da sociedade - das recicladoras às executivas, todas contribuem com seu valoroso trabalho na construção de um novo tempo.
A nova mulher, para surgir, ocupou o espaço que lhe cabia, por direito e competência. Agora, ela sabe que o futuro lhe reserva o papel de protagonista, na tarefa de construir, ao lado dos homens, uma sociedade justa e igualitária.
MÁRCIA LOPES é assistente social em Londrina e ex-ministra do Desenvolvimento Social e Combate à Fome





