ESPAÇO ABERTO
Como diz FHC, quebrando o tabu
Na reportagem ''Sul tem maior número de usuários de maconha'' (Geral, 29/2) o psiquiatra Carlos Salgado, conselheiro da Associação Brasileira de Estudos do Álcool e Outras Drogas, emitiu opinião que serve mais para desinformar e perpetuar opiniões moralistas e sem embasamento científico algum, do que para trazer luz ao debate sobre o uso da maconha. Esta planta tem sido utilizada medicinalmente por toda a história da humanidade, desde a China antiga até a nobreza inglesa do século 19.
Sua proibição é recente e data de menos de cem anos e, de modo algum, foi baseada em critérios científicos e de saúde pública. O veto foi baseado em preceitos morais, econômicos e racistas, já que, como era uma planta consumida por negros e mexicanos nos EUA, ficava mais fácil segregar essas pessoas através da criminalização de um hábito desses grupos.
Atualmente, importantes autoridades do meio político e científico advogam a favor da regulamentação do consumo. Dentre eles, temos brilhantes neurocientistas brasileiros, como Sidarta Ribeiro, Renato Malcher e Stevens Rehen. Estes pesquisadores afirmam que a maconha é uma droga muito mais segura e menos viciante do que o álcool e o tabaco, que a teoria da ''porta de entrada'' não passa de um mito que, absolutamente, não corresponde à realidade da maioria esmagadora dos usuários, e que a ideia de que a maconha ''mata neurônios'', simplesmente, é falsa.
Pelo contrário, esses pesquisadores citam pesquisas que concluíram que os princípios ativos da maconha possuem efeito neuroprotetor, com potencial de utilização no combate de doenças como Parkinson e Alzheimer. Ainda, importantes políticos de países que enfrentam problemas graves com a violência gerada pelo tráfico de drogas, como Fernando Henrique Cardoso, César Gaviria, Ernesto Zedillo e Bill Clinton, ex-presidentes do Brasil, Colômbia, México e EUA, respectivamente, concluíram, após muitos estudos, que a guerra ao tráfico e a ilegalidade é muito mais danosa à sociedade do que a droga em si. Há muito mais pessoas morrendo em decorrência dessa guerra, muitas inocentes, do que pessoas morrendo diretamente em decorrência do abuso de substâncias ilícitas.
Os neurocientistas Sidarta Ribeiro e Renato Malcher dizem que é simplesmente impossível morrer de overdose de maconha, enquanto a guerra realizada para coibir o seu consumo e a disputa dentro do tráfico já mataram milhares de pessoas no Brasil.
A maconha possui grande potencial de utilização medicinal, no combate aos efeitos da quimioterapia do câncer, no tratamento da Aids, Parkinson, Alzheimer, glaucoma, ansiedade, no combate a tumores malignos, dentre outras.
Ao contrário da maconha, o álcool é uma droga que pode matar por overdose, e nem por isto é ilegal, tendo sido definidas formas responsáveis para o seu consumo.
Por outro lado, do mesmo modo que o álcool, estudos mostraram que a maconha não deve ser consumida por crianças e adolescentes, por afetar o desenvolvimento cerebral nessas faixas etárias, e por pessoas com tendência a surtos psicóticos e esquizofrênicos. Mesmo assim, há uma ampla parcela da sociedade, que inclui médicos, psiquiatras e neurocientistas que advoga que, não apenas a utilização medicinal, mas também a utilização recreativa, feita por adultos saudáveis e de modo responsável, é segura e deve ser regulamentada.
O mais importante de tudo é desobstruir o debate. A guerra total às drogas foi perdida, nunca o mundo combateu tanto as drogas e nunca elas foram tão consumidas. Um debate sem tabus, sem moralismos e demonizações, baseado em ciência, deve ser realizado a fim de encontrar uma nova maneira de lidar com a maconha, de modo a minimizar seus malefícios, inclusive aqueles relacionados à guerra e ao tráfico, e maximizar seus benefícios.
CRISTIANO MEDRI é biólogo e professor pesquisador da Universidade Estadual do Norte do Paraná em Bandeirantes





