ESPAÇO ABERTO
Golpe de mestre no esporte
Dentre os diversos desvios investigados na área dos esportes, um chamou a atenção pelo inusitado. Um convênio firmado em 2007 entre o Ministério dos Esportes e uma ONG de Feira de Santana, município do interior da Bahia, permitiu o repasse da vultosa soma de R$ 60 milhões que supostamente seriam utilizados na construção de uma pista de atletismo inovadora, feita com borracha de pneus reciclados. O autor do projeto e presidente da Fundação de Apoio ao Menor era até então um anônimo mestre de capoeira que se auto proclamava ''meio professor pardal, dado a invencionices''.
O fato noticiado ocorreu no interior da Bahia, mas serve de alerta para situações que podem estar ocorrendo bem mais próximas de nós. Penso que na mesma proporção em que as tais placas de borracha foram sendo amontoadas em um galpão sem nunca virarem pista para atletismo, milhões de reais dos bolsos dos contribuintes possam estar tendo destino semelhante, indo parar em ONGs fantasmas espalhadas por aí e que se sustentam com o discurso de promover o esporte nas comunidades carentes.
Os recursos públicos que lhe são destinados nem sempre obedecem aos critérios que deveriam e muitas vezes servem apenas para atender a currais eleitorais de políticos desonestos ou simplesmente e descaradamente para beneficiar os próprios autores dos projetos. Embora a liberação de tais recursos requeira o cumprimento de uma extensa burocracia, muitos espertalhões, mestres em falcatruas, conseguem dar voltas no sistema e burlar o controle dos órgãos de fiscalização. Superfaturamento, notas falsas, emprego de laranjas, conchavos entre agentes públicos e presidentes de ONGs e todas as demais artimanhas já conhecidas nas outras áreas que envolvem corrupção são possíveis de estarem sendo utilizadas para desviar recursos que poderiam alentar os sonhos de milhares de atletas das periferias das nossas cidades.
Quem já se preocupou em levantar o número de entidades desportivas, associações, agremiações, fundações, federações que organizam e realizam torneios, campeonatos, encontros e treinamentos das mais diversas modalidades e que para isso recebem verbas federais, estaduais ou municipais? Aqui mesmo no Paraná são centenas e entre as muitas legalizadas e corretas, algumas certamente são apenas fachadas e geridas por presidentes vitalícios que contam com o beneplácito de uma corruptela de ''chegados'' que compõem a diretoria e o conselho fiscal. São verdadeiras serpentes que se esgueiram pelas trilhas dos acordos espúrios e da clandestinidade, travestidos de desportistas.
Mais do que vítimas desses inescrupulosos, somos responsáveis pela fiscalização da aplicação dos recursos oriundos de fontes públicas e devemos nos indignar com quaisquer desvios deles, especialmente nesses casos em que podem fazer a diferença na vida de milhares de crianças e adolescentes que vivem em situação de risco. O esporte para elas é a redenção para a ociosidade, principal deflagrador dos problemas sociais que se intensificam nessa faixa etária, tais como as drogas, envolvimento em atos infracionais diversos, além de serem objetos de toda sorte de explorações.
A arena esportiva, seja lá de qual for a modalidade, é o espaço ideal para a construção da democracia. Nela as possibilidades são iguais e a vitória e a derrota são apenas faces de mesma moeda. Da mediação entre o ganhar e o perder brota a sólida estrutura de caráter; do encontro com os pares, floresce a possibilidade de convivência harmoniosa; da dinâmica do jogo, surgem lições para as aplicações práticas da vida. São preciosidades que não podemos deixar que se transformem em alimento para a sanha de usurpadores.
Atletas, treinadores, comerciantes, enfim, a população em geral deve monitorar a autenticidade dos projetos de repasses de verbas, suas destinações e prestação de contas, inclusive solicitando vistas dos processos, que são públicos, uma vez que utilizam verbas do governo. Agindo assim garantiremos que cada vez mais nossos atletas subam ao pódio para receber a medalha pela vitória na sua modalidade, e, principalmente o galardão maior que é o exercício da cidadania e a qualidade de vida.
JAIR QUEIROZ é psicólogo e pós-graduado em segurança pública





