O sociólogo italiano Roberto Cipriani, pesquisador do fenômeno religioso no século 21, demonstra em livro recém lançado que as igrejas tradicionais continuam perdendo significativamente seus fiéis. Contudo, não está aí o fim das religiões, já que estas - segundo sua tese - possuem a capacidade ímpar de se adaptarem ao mundo e continuarem sobrevivendo.
Já faz tempo que as religiões, pelo menos no Ocidente, deixaram de ser extensão do Estado. Num primeiro momento, contava-se com o aparato estatal para propagar a fé, mesmo que para isso fosse preciso recorrer ao uso das armas e da força. Há muito essa prática deixou de ser contemplada nas estruturas laicas do Estado moderno. Impor verdades com pretensões absolutistas transmitidas de forma dogmática não soa mais complacente com o Estado Republicano e secular.
A religião percebeu que na ausência do Estado era mais producente confiar no mercado, passando a distribuir a fé para indivíduos no varejo e não mais em pacote fechado indistintamente para o coletivo.
Com o advento da modernidade e da Reforma, o discurso religioso se converteu para acomodar a interação indivíduo-mercado, base da sociedade de aquisição capitalista. Para o sociólogo Max Weber, o protestantismo foi importante instrumento, nesse contexto, para a operacionalização do desenvolvimento econômico, mais precisamente do homo economicus.
Além disso, a modernidade possibilitou ainda uma fé reflexiva, menos institucional e mais individualizada. Hoje não há mais Estado, rei ou igreja que possa decidir o que o individuo deva fazer. As igrejas perderam o poder de imposição, já que os indivíduos deliberam sobre suas opções de crenças e constroem suas identidades valorativas a la carte, ou seja, tudo ao gosto do freguês.
Essa lógica pós-moderna - como muitos sustentam na academia - aponta que as religiões atualmente investem no mercado para sobreviver. Os movimentos derivados da teologia da prosperidade, na década de 1960, corroboram a vinculação do discurso religioso à lógica de consumo imposta pelo tráfico mercadológico. Procedem desse contexto as biografias bem sucedidas dos mercadores da fé, donos dos templos-empresas que somam vultosas fortunas privadas.
Porém, atualmente, convêm às religiões firmarem posição além do Estado e do mercado, fazendo soar suas vozes na esfera pública. É indispensável que o discurso religioso - antes de se refugiar em preleções de simplificação pedagógica e de instrumentalização econômica - saiba se firmar na arena do debate público, sobretudo em temas importantes que clamam por mais ponderação e menos dogmatismo.
Que os púlpitos eletrônicos - lembrando que são concessões públicas - sejam utilizados para o aperfeiçoamento da convivência plural e cidadã. Que os mesmos não sirvam apenas de amplificadores para ecoar pré-juízos ou mensagens preconceituosas que atentam amiúde contra os direitos fundamentais, especialmente de minorias, ou servir disfarçadamente de reserva de mercado para partidos políticos.
É imprescindível considerar a esfera pública como lócus de aprendizado das regras do Estado democrático de direito, principalmente do respeito à pluralidade e à diversidade de ideias. As religiões não devem se furtar da esfera pública. Necessitam fazer ouvir suas posições e respeitar as diferenças.
Quase nada contribuem as pregações que primam pela exclusividade de conteúdos pré-modernos diante de um espaço público cada vez mais complexo, plural e participativo. As igrejas que optarem pelo isolamento ou pela porta dos fundos do mercado, deixando de enfrentar os dilemas do nosso tempo na arena pública, com um debate franco e sincero, permanecerão sempre mais na dependência de milagres para sobreviverem.
CLODOMIRO JOSÉ BANNWART JÚNIOR é professor de Ética e Filosofia Política na Universidade Estadual de Londrina

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