Festas da Igreja e álcool
O alcoolismo é uma doença e um veneno que destrói a pessoa, desagrega a família, fracassa a vida, mata no trânsito, provoca violência. O álcool é a porta que leva às outras drogas. Todos sabemos que o alcoolismo é uma doença. ''Não vos embriagueis'' (Ef 5,18).
O governo quer restringir ainda mais o consumo de álcool e a Igreja assumiu a Pastoral da Sobriedade. Como então fazer festas da Igreja com álcool?
Muitas dioceses já aboliram o álcool nas festas da Igreja. Ninguém saiu prejudicado, pelo contrário, tudo melhorou.
O Documento de Aparecida afirma que a Igreja deve abandonar ''estruturas ultrapassadas'' (nº 365). E se há algo ultrapassado é festa religiosa com álcool. Além de doença, o alcoolismo é uma epidemia. Nós somos a favor da vida. O álcool mata. Quem ainda defende festas religiosas com álcool são lideranças antigas que não acreditam no dízimo e que não usam de criatividade para encontrar outras soluções para a manutenção da comunidade.
Não somos contra as festas, pelo contrário, elas são benéficas, mas sem álcool. Todos sabemos comprovadamente que a venda de álcool não traz lucro. ''Detesto vossas festas, tornaram-se uma carga que não suporto mais'' (Is 1,14). O povo é contra as festas com álcool, pois quem sofre as consequências são as famílias. Além disso, somos com razão criticados por outras religiões. É preciso ter coragem de mudar. O próprio Senhor nos alerta: ''Cuidado com a embriaguez'' (Lc 21,34).
Para tirar o álcool, o pároco e as lideranças precisam acreditar no dízimo e incentivá-lo e a comunidade precisa ser conscientizada e informada sobre as razões, os motivos e a importância da festa sem o álcool e suas vantagens. Muitas paróquias já aboliram o álcool em nossa Igreja e estão super felizes com melhores rendimentos, maior participação do povo e grande alegria.
Nós precisamos dar o bom exemplo e sermos coerentes com a nossa fé e a Pastoral da Sobriedade. Assim não seremos causa de escândalo para a sociedade e estaremos colaborando com a saúde publica. Se em nossas festas se infiltrarem vendedores de fora, temos muitas maneiras de solucionar a questão. É só querer. O que importa é que a promoção do álcool não venha da nossa parte. Se alguém aluga nossos salões para casamentos, formaturas e outros encontros, o uso do álcool não é patrocinado pela Igreja, mas pelos responsáveis pela festa.
A experiência tem comprovado que o suco de uva, a cerveja sem álcool, os refrigerantes e outras bebidas substituem as bebidas alcoólicas. Quanto menos álcool, mais as famílias participam e maior é o consumo de comidas, doces etc. Quem bebe muito álcool consome pouco. Todas estas realidades precisam pesar na nossa decisão de abolir o álcool nas festas religiosas.
O alcoolismo atinge a juventude, as mulheres e inclusive pessoas da Igreja. Temos centros de recuperação de dependentes químicos. Não podemos entrar em contradição nem viver na incoerência e dando mau exemplo. Abolir o álcool das festas não significa puritanismo, nem moralismo. Cada qual é responsável pelas decisões que assume. O que não podemos é manter uma estrutura ultrapassada, fechando-nos a outras cabíveis e louváveis soluções que estão dando certo diante de nossos olhos. É só querer enxergar.
Por fim, lá aonde cresce a consciência e participação comunitária, o lado econômico é resolvido com relativa facilidade. Onde existe a comunhão e participação a parte financeira cresce sem a necessidade de recorrer ao álcool. É mais fácil fazer festas com álcool do que criar verdadeiras comunidades de vida com espírito de família. Estamos diante de dois tipos de eclesiologia, dois tipos de perfil de Igreja. O velho perfil das festas com álcool já não se sustenta.
DOM ORLANDO BRANDES é arcebispo de Londrina.

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