ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
domingo, 22 de janeiro de 2012
Clodomiro José Bannwart Júnior 
Recentemente, o tradicional jornal argentino ''La Nacion'' estampou em seu editorial o título ''El ejemplo de Brasil''. Nossos vizinhos portenhos, ao que parece, olham o Brasil com certa dose de ufanismo e, ao mesmo tempo, com pesar quando comparam nossos números aos deles. O referido editorial afirmava que, institucionalmente, o Brasil tem evitado as concentrações excessivas de poder, além de contar com um Judiciário independente e imparcial que não está submetido ao domínio político. Ademais, a oposição cumpriria o seu papel vigilante no Legislativo.
Na mesma direção, escreveu há pouco o escritor peruano Mario Vargas Llossa que, em seu país, os discursos de esquerda e de direita não mais coadunam com a realidade, sendo necessário aprofundar as instituições democráticas e o próprio Estado de Direito e, nesse caso, o Brasil seria um bom exemplo a ser seguido.
Se comparado à realidade da maioria dos países latino-americanos, é certo que o Brasil soma muitos aspectos positivos conquistados paulatinamente nas duas últimas décadas. O diferencial sensível se faz sentir, sobremaneira, na economia. Porém, quando o tema é política, ainda estamos distantes do ideal que nos imputam os vizinhos latinos.
Tanto o Brasil como os demais países da América Latina parecem nivelados pelo mesmo denominador comum: o deficit democrático. E se igualam mais precisamente quando o assunto é a oposição, grosso modo, formada por partidos sem capacidade de vigiar nem controlar os executivos. Acresce ainda que em muitos desses países o Poder Judiciário não é plenamente liberto do invólucro político e os governos apinhados de poder são frequentemente adulados com doses generosas de populismo.
Os anos de chumbo dos regimes ditatoriais deixaram marca na região. Embora atualmente vários países tremulem a bandeira da esquerda, muitos deles não conseguem esconder o caudilhismo. Venezuela é o exemplo mais emblemático de mando autocrático. O Brasil e a Argentina cultivam preceitos institucionais e democráticos, porém sem uma oposição firme, capaz de fiscalizar atentamente quem de fato governa.
Em nosso caso, vale lembrar que o PSDB e mais cinco partidos coligados saíram da eleição presidencial de 2010 com quase 44% dos votos válidos. Adicionam-se ainda sete partidos menores competindo com candidaturas próprias, destacando Marina Silva que chegou ao final do primeiro turno com surpreendente 19,33% das urnas. A questão é saber se a cifra da oposição, deveras respeitada, foi de fato transformada em discurso efetivo. Ao que parece, não! Os próprios opositores, por motivos pouco coesos de fidelidade partidária, têm contribuído para desintegrar ainda mais a oposição. Muitos nomes que antes possuíam aguerrido discurso oposicionista irão às eleições deste ano com as bênçãos da situação.
Sabemos desde Aristóteles que a política é posta no terreno da práxis como obra do possível e do provável, adjacente da retórica e da ética. A política não é concebida como exercício lógico, de raciocínio dedutivo, capaz de assegurar previsibilidade absoluta como exige a ciência. É por excelência um ofício artesanal que mesmo lhe faltando o rigor da lógica, não lhe pode jamais faltar a coerência.
As eleições municipais de 2012 demonstrarão, logo mais, verdadeiro festival de incoerências, em que oposição e situação serão apenas encenações passageiras da teatralidade amadora, dessa vez dos grupos regionais e locais. No palco da democracia aparecerão várias ''personas'' esbravejando perorações vazias. Na verdade, são figurantes dramáticos, fruto da fartura de partidos no varejo que nada representam de oposição no atacado.
CLODOMIRO JOSÉ BANNWART JÚNIOR é professor de Ética e Filosofia Política na Universidade Estadual de Londrina


