O convívio intenso e longo com o poder tem um poderoso efeito narcotizante. Transforma seres mortais, pessoas simples e humildes em pequenos ''deuses'' de um Olimpo cada vez mais povoado. A que se deve esse tipo de distorção? Ao armadilhado falso retrato, da autocontemplação, que prende os homens públicos na moldura de Narciso, aquele que foi condenado pelos deuses a se apaixonar pela própria imagem. Hoje, vive-se a plena era do Estado-midiático. Como lembra Roger-Gérard Schwartzenberg, no clássico ''O Estado-espetáculo'', os profissionais do espetáculo e da política compartilham frequentemente as mesmas atitudes e os mesmos vezos, como se, diante de problemas de representação comparáveis, ''eles reagissem recorrendo a procedimentos análogos''. O Brasil está recheado de narcisistas, pessoas fascinadas pelo seu próprio brilho ilusório, porque muitas perderam o poder, mas não o orgulho. Que tipo de mal os narcisistas cometem contra si e contra a sociedade? O maior dos males é o da perda do sentido de realidade.
Os malabaristas da política promovem a mistificação das massas, fazendo-as crer que o discurso é a ação, o verbo é a obra, a palavra é sinônimo de verdade. Muitos se transformam em dândis, com seu prazer em surpreender. O dândi quer chamar a atenção, provocar, criar impacto. E, não raro, cai no exagero, fazendo da estética sua ação política mais forte. É useiro e vezeiro na arte do exagero.
Duas historinhas mostram os polos do discurso tradicional da política. A primeira é a do baiano, embevecido com a retórica complicada, cheia de palavras difíceis, de seu candidato em comício numa pequena cidade interiorana. Não se cansou de bater palmas, concluindo categórico: ''Não entendi nada do que o homem falou, mas falou bonito; vai levar meu voto''. A segunda historinha é a do candidato que, arrebatado, enérgico, espumando de civismo, discorria sobre o sentido da liberdade. Argumentava que um povo livre sabe escolher os seus caminhos, seus governantes, eleger os seus vereadores, prefeitos e deputados. Para entusiasmar a multidão, levou um passarinho numa gaiola, que deveria ser solto no clímax do discurso.
No momento certo, tirou o passarinho da gaiola, e com ele na mão direita, jogou o verbo: ''A liberdade é o sonho do homem, o desejo de construir seu espaço, sua vida, com orgulho, sem subserviência, sem opressão; Deus (citar Deus é sempre bom) nos deu a liberdade para fazermos dela o instrumento de nossa dignidade; quero que todos vocês, hoje, aqui e agora, comprometam-se com o ideal do homem livre. Para simbolizar esse compromisso, vamos aplaudir e soltar esse passarinho, que vai ganhar o céu da liberdade''. Ao abrir a mão, viu que esmagara o passarinho. Foi um desastre. É sempre assim quando não se controla a emoção. Em se tratando do discurso político, a emoção mata frequentemente a razão.
Juntando-se, então, o narcisista e o demagogo, o verborrágico e o reizinho cheio de empáfia, tem-se a receita de um perfil que ainda teima em se apresentar às massas nacionais. É o encontro do ruim com o pior, de Narciso com aquela figura canhestra tão bem caracterizada por Chico Anísio, Justo Veríssimo. E quando isso ocorre, a política volta a ser aquilo que Paul Valéry mais temia: ''A arte de impedir que as pessoas cuidem do que lhes dizem respeito''. Nesses tempos de grande influência da mídia, é bom ter cuidado, porque a espetacularização da política pode significar a ruína dos atores. Não enganam mais como antigamente; são pegos quando escondem o lixo debaixo do tapete; e flagrados quando a maquiagem procura disfarçar a deficiência do pensamento.
Mulheres e homens públicos: reflitam sobre o exercício da representação coletiva. Assumam o compromisso de trazer a verdade para a seara da política. O Estado-espetáculo aprecia os efeitos mágicos do circo político. Mas há um limite para tudo. Um dia, mais cedo ou mais tarde, o povo, cansado de ver tanto malabarismo, fará a mágica que nenhum representante gostaria de ver: mandá-lo de volta para sua casa sem o passaporte do mandato popular.
GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor titular da USP, consultor político e de comunicação em São Paulo

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