Os ministérios e os mistérios do sistema
As denúncias se sucedem. Os desvios de verbas e de condutas estão se tornando regra. O dinheiro público vem sendo mal utilizado ao longo dos anos. E os ministérios do governo federal, a cada dia, são tirados do anonimato nas notícias de corrupção e não pelo modo como deveriam executar os serviços públicos. Em novembro, a imprensa noticiou as possíveis fraudes numa obra no Mato Grosso, gerenciada pelo Ministério das Cidades em conjunto com o governo daquele Estado, relacionada à Copa do Mundo. Essa e tantas outras já foram divulgadas e, após explicações, o ministro caiu.
Se a troca dos ministros resolvesse, não haveriam as sucessivas fraudes constatadas nos mais variados setores públicos e privados. Quem escolheu o ministro não foi a chefe do Poder Executivo, mas o partido da base de apoio. E, necessariamente, como manda o sistema político pátrio, o mesmo partido escolherá o substituto. E aí? Não há autonomia para governar. A competência e a capacitação técnica ficam relegadas a planos secundários, ao passo que as políticas de apadrinhamento ficam posicionadas no plano primário.
Líderes de bancada ou de partido defendem seus aliados e correligionários - ''as acusações são precárias, há que se investigar com cautela''. Concordo. Mas a moralidade pública e a transparência não admitem o acúmulo de suspeições que se sucedem nos governos, seja nos nove anos do PT e aliados ou nos anteriores do PSDB e aliados. Há que se agir com austeridade e sem nenhuma complacência para com os corruptos da confiança e esperança do povo.
O sistema político brasileiro é nefasto. Corroe e corrompe. A governabilidade passa pelos embargos de favores eleitoreiros e partidários, cujos protagonistas são ardilosos e possuidores de uma retórica maquiavélica e fugaz. Esse sistema conduz os governos ao conchavo político. Uma proposta entra em pauta e outra vem em seguida, como condição para aprovação da primeira. E o povo, como destinatário mor das políticas públicas e de todo trabalho do Congresso e do Executivo, como fica? Sai do caminho para não atrapalhar as votações secretas. O povo é lembrado e se faz presente nos discursos efusivos e eloquentes, pois na formulação e gestão das políticas públicas o engodo e a dissimulação escondem a vaidade e os interesses eleitoreiros.
Os mistérios ainda são muitos e não são poucas as denúncias cotidianas de desvios de conduta e de imoralidade. O corrupto está por aí; os corruptores por perto. As maracutaias vão continuar, basta esperarmos para constatar outro e outro desvio de verba e de conduta. A Copa de 2014 se aproxima, as Olimpíadas de 2016 também, e as oportunidades para os corruptos vão aumentar. A iniciativa privada lucra muito com as fraudes e é responsável por alimentar os esquemas de corrupção, tudo regado a jantares, bebidas nobres e requintadas.
Tomara que as ações dos administradores públicos e privados, em vista das competições vindouras, reverberem nas comunidades de todos os rincões do território brasileiro. A pátria amada vem sendo surrada há muito tempo. O esporte e os espetáculos resultantes são um instrumento eficaz e necessário para o progresso social, todavia as alegrias de um campeonato mundial de futebol, de um título da natação ou de outra modalidade esportiva, não podem esconder as necessidades de um país tão grande e tão belo como o Brasil. O circo tem que ceder lugar para os valores profissionais que deverão alavancar a nação a patamares altos.
Chega de mistérios e indivíduos que entendem como privadas as verbas dos ministérios. O sistema político deve ser repensado e os cidadãos do bem e de bem proclamar as suas aspirações e anseios nas urnas.

MARCOS ANTONIO TORDORO é capitão e comandante da 1 Companhia de Polícia Militar de Rolândia

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