ESPAÇO ABERTO
Educar ou atirar pedras?
A Câmara Federal aprovou o projeto de lei que prevê punição para os pais que usarem castigos físicos para ''educar'' os filhos, o que, na linguagem popular, ficou conhecido como ''lei antipalmada''. Segundo alguns veículos de imprensa, 60% da população desaprova o tal projeto e o argumento que sustenta seus pontos de vistas é de que não cabe ao Estado definir as formas como os pais devem educar seus filhos. Sentem-se tolhidos do direito de se valer do recurso da ''palmadinha para impor limites e garantir a autoridade''. Defendem que apenas um tapinha de leve não gera consequências.
Não tenho a receita de como educar filhos, porém entendo que uma palmadinha pode até não causar grandes danos, mas também não é educativa por uma simples razão: bater, seja a que pretexto for, especialmente se o agressor for um adulto e o agredido uma criança, é um desrespeito à integridade física e uma demonstração de falta de educação. Logo, educar, tomando por método uma prática ''deseducada'', é, no mínimo, uma grande incoerência. É dizer nas entrelinhas que quando não se consegue o que se quer deve-se partir para a agressão. Um estímulo à violência, que tende a se perpetuar pelas gerações futuras dentro das próprias famílias, e quiçá, afetar todo o meio social.
Não é possível prever a extensão dos danos que uma tapinha pode causar, mas podemos afirmar, com certeza, que isso depende mais de quem bate e de quem apanha; das razões arguidas por quem bate e as razões percebidas por quem apanha; da intensidade emocional mobilizada por ambos os envolvidos e uma série de outras variáveis. O fato é que se o objetivo é educar, definitivamente, a prática é inútil, além de apontar para a possibilidade de deixar uma mensagem subliminar sobre o ''valor da agressão física''. É essa mensagem que leva o imaginário popular a crer que as ''pessoas honestas'' de hoje são frutos das palmadas que receberam no passado, tese que não se sustenta. É certo também que gestos, palavras, castigos e até mesmo intenções não manifestadas verbalmente, podem produzir estragos psicológicos até maiores.
Então, como educar o filho? Essa é a pergunta que muitos pais estão se fazendo. Como não tenho receita pronta, vou opinar, embora seja uma opinião abalizada pelas lições do grande psicólogo e pedagogo norte-americano, Carl Ranson Rogers, autor de ''Liberdade para aprender'', ''Um jeito de ser'' e outros livros que foram best selers nos anos 70 e 80.
Mesmos os melhores pais, raramente conseguem ver e sentir seus filhos com sensibilidade empática, isto é, a partir dos referenciais deles, enquanto seres únicos e dotados de capacidade para o autodesenvolvimento. Preocupados em dar-lhes a melhor educação, lhes educam com base nos seus próprios paradigmas, os quais tomam como a concretude da sabedoria. Os castigos e as surras são recursos que denotam insegurança por não verem seus referenciais se reproduzindo no filho. Caso esse intento se realizasse o resultado seria a privação do educando da possibilidade de ter uma individualidade, de ser alguém especial no mundo, orientando-o para a mera reprodução dos anseios paternos, logo, um ser cindido, uma pessoa incongruente.
Não nos esqueçamos que ressaltar as competências dos filhos é mais educativo do que somente criticar-lhes as falhas e não temamos perder a autoridade pela impossibilidade de usarmos o velho recurso do castigo físico. Afinal a verdadeira autoridade é conquistada na convivência harmônica, na disponibilidade, na paciência, no companheirismo e aí sim, na sabedoria. Os limites dos filhos são reflexos dos limites dos pais e estão impregnados da cultura familiar.
Vamos, por fim, refletir sobre o que nos disse Deuteronômio, três mil anos atrás, acerca dos filhos rebeldes: ''...os pais tomarão o filho e o levarão aos anciãos e dirão: Esse filho não nos obedece, não ouve nossos conselhos, é comilão e beberrão. (...) e será ordenado que seja levado para fora dos muros da cidade e apedrejado até que morra, pois assim tirarás o mal do meio de vós''.
Algumas leis precisam mesmo ser reformadas, mas, muito mais importante que reformar leis, é que reformemos as nossas mentalidades e as nossas atitudes.
JAIR QUEIROZ é psicólogo e pós-graduado em Segurança Pública em Londrina





