Era do trânsito: geração perdida
Ônibus capota em rodovia brasileira. Dez mortos e outra dezena de feridos. Manchete em jornais por todo país. Sangue verde-amarelo nas estradas. Comoção geral, tristeza, consternação. Nasce novo dia. Caminhão colide com ônibus escolar. Dez crianças morrem no local. Manchete em jornais...
Fenômeno comum nos países em desenvolvimento, mas infortúnio também no mundo desenvolvido, a ''Era do trânsito'' da civilização brasileira contemporânea impõe desafios tão vultosos quanto as facilidades que proporciona. O asfalto, os veículos, as vias em expansão, as frotas em explosão, verdadeiro exército de máquinas entre pedestres e raras áreas verdes compõem o cenário dessa ''Era'', assim saturado por cruzamentos cada vez mais complexos e engarrafados.
Cobranças por estacionamento, rodízios em dias da semana, pedágios em áreas centrais, muitas são as iniciativas paliativas no enfrentamento do tema. Vale conter o fluxo de veículos, mas e quanto à frota que cresce vertiginosamente? Câmeras, radares, blitze, bafômetros, legislações mais ''duras'' (ou óbvias, como no caso do álcool?), muitas são as ações com o intuito de debelar dores, sofrimentos, mutilações, sequelas e mortes em acidentes no trânsito.
Pesquisa recente do mestrado em Saúde Coletiva da Universidade Estadual de Londrina, das pesquisadoras Flávia Lopes e dra. Selma M. de Andrade, verificou aumento de 151,7% (1.576 para 3.968) no número de motociclistas vítimas de acidentes de trânsito em 2010 em relação a 1998 em Londrina. A frota de veículos a motor de duas rodas passou, nesses mesmos anos no município, de 69,6 para 128,1 por mil habitantes.
Entretanto, há que se destacar protagonismo de verdadeiros heróis contemporâneos. O morticínio, o sofrimento, e as sequelas só não são ainda mais nefastos, pois, atualmente, a sociedade possui anjos no asfalto. Hoje, bombeiros socorristas, auxiliares de enfermagem, enfermeiros, motoristas e médicos são atores principais de enredo em que tempo é vida. Por mais que critiquem o SUS e os serviços públicos, e por mais que realmente esses recursos sejam limitados (o que aumenta sobremaneira o mérito desses abnegados cidadãos), inegavelmente, os serviços pré-hospitalares e hospitalares de urgência e emergência logram com sucesso digno de nota amortizar mutilações e mortes em acidentes nas vias brasileiras.
No entanto, não há como mudar essa realidade sem prevenção dos acidentes e promoção de vida no trânsito. Quando se erra nesse contexto, grosso modo, faz-se por transgressão das leis, descuido em fazer o correto, execução sem devido treinamento, e inobservância ao bom senso e à urbanidade nas relações humanas.
Apresento cinco princípios fundamentais para humanização no trânsito: 1- cumpra as leis vigentes; 2- respeite o próximo; 3- cuide dos mais vulneráveis; 4- seja paciente; 5- Aja, sempre, com bom senso e urbanidade. Vale frisar que é preciso fraternidade, respeito e amor ao próximo para que haja vida no trânsito.

FLÁVIO H. M. SANT'ANNA é médico e mestrando em Saúde Coletiva pela Universidade Estadual de Londrina

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