A escola era soberana, se algum aluno não dominasse o conteúdo previsto, automaticamente deveria cursar novamente aquela série e, mais tarde, em condições adequadas de aproveitamento, seria promovido e continuaria sua trajetória escolar. Estudar o mesmo conteúdo em duas etapas propicia melhor aprendizado, especialmente daqueles que, por diferentes razões, ainda não se encontram com suficiente maturidade cognitiva e/ou emocional. Então, se bem orientados, podem se beneficiar vivendo não a derrota da reprovação, mas o privilégio de rever conteúdos ainda não apreendidos e, logicamente, se tornando melhor capacitados para enfrentar os novos desafios acadêmicos.
Em tempos de fast food, internet e outras rápidas modernidades, estudantes, pais e professores passam por situações delicadas. Alguns acompanham o desempenho do filho e, quando necessário, buscam a própria escola para melhor compreendê-los e auxiliá-los. Entretanto, nem sempre o sucesso desejado é alcançado. A busca por satisfação, imediata e a qualquer custo, leva crianças, adolescentes e adultos à beira de um ataque de nervos.
O término do ano letivo agrava a situação. Com o feed back anual prestes a chegar, alunos e pais muitas vezes entram em desespero. As escolas que fornecem aulas particulares (revisão para provas, etc.) ficam infladas. Estudantes das mais diversas idades buscam recuperar as perdas de aulas, de provas, de trabalhos, de notas insuficientes, como se fosse possível aprender os conteúdos de um ano num piscar de olhos. Buscam fórmulas mágicas para tornar azuis as notas vermelhas e assim provar a si mesmos que estão aptos a ser promovidos para a série subsequente. Dezembro então acaba se transformando num tempo de angústia e apreensão.
A família precisa estar muito atenta ao que acontece com os filhos estudantes, ajudando a organizar suas rotinas de estudo e ensinando a lidar com as frustrações e as dores do insucesso. É necessário buscar a causa do baixo desempenho em atitudes inadequadas e até irresponsáveis em relação às atividades acadêmicas e, também, considerar a existência de problemas de outra ordem interferindo na situação.
Alguns mal entendidos podem mascarar as dificuldades dos estudantes. Quem não segue regras ou apresenta irritabilidade logo é considerado portador de TDAH (Síndrome de Deficit de Atenção e Hiperatividade), quando muitas vezes padece de outros males que vão desde a ausência de limites, dificuldade em tolerar frustrações e transtorno de conduta até psicopatologias mais graves de ordem emocional. Problemas que podem acompanhar ou potencializar transtornos de aprendizagem.
Na internet também encontramos informações sobre tais assuntos, entretanto só os profissionais devidamente habilitados nas áreas de saúde podem colaborar de fato com os educadores. Ao invés de rótulos, o aluno necessita de diagnóstico; ao invés de drogas administradas ao acaso, tratamento medicamentoso efetivo; ao invés de medidas paliativas, atendimento psicoterápico e psicopedagógico de boa qualidade.
Entretanto, muitas vezes nos deparamos com pessoas que buscam nos consultórios psicológicos não a compreensão e o tratamento, mas sim uma justificativa para as ausências às aulas e não realização dos trabalhos acadêmicos. Alguns chegam a solicitar um ''atestado psicológico'', acreditando que funcionaria como um escudo protetor, evitando qualquer consequência pelas imperfeições e fracassos de seus filhos. De tal forma, ao invés de buscar o aprimoramento da capacidade de aprender, preferem perpetuar a ignorância, o pseudossaber e a superficialidade tão comuns ao ''fast-tudo''.
MARIA ELIZABETH BARRETO DE PINHO TAVARES é doutora em Psicologia Clínica em Londrina

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