A pobreza nos distritos de Londrina
Fiquei estarrecida ao ler a reportagem ''Paiquerê tem pior situação'' (Economia, 4/12) que indica o distrito de Paiquerê, segundo os dados coletados pelo Censo de 2010, como sendo proporcionalmente o lugar onde há mais pobres no município de Londrina. Longe de contestar os dados divulgados pelo o IBGE, instituição que desde a década de 1940 é responsável por fornecer o perfil da sociedade brasileira, além destes dados se constituirem de fonte importante de pesquisa dos nossos trabalhos acadêmicos, em especial de Geografia, mesmo sabendo que a pobreza em Paiquerê é efetiva, acho pouco provável que o referido distrito concentre mais pobres do que algumas áreas subnormais da periferia de Londrina decorrentes de invasões.
Como não tenho outra fonte para contrapor tais dados é importante refletir sobre o porquê no distrito com a maior área agrícola do município exista cerca de 100 famílias vivendo em condições precárias com um valor de R$ 136,25 per capita? Talvez, esse fato seja decorrente da grande disparidade de renda que ainda persiste no país, mesmo depois das políticas implementadas pelos últimos governos e pelos efetivos números de crescimento da economia brasileira desde início do século 21. Tais políticas não foram suficientes para a garantia da melhoria de vida de milhares de pessoas em todas as regiões brasileiras até mesmo no ''Sul maravilha'', em especial aquelas residentes nas áreas rurais onde a grande propriedade agora mecanizada ainda é um entrave na distribuição de renda.
É importante ressaltar que a sede urbana do distrito de Paiquerê é circundada por grandes fazendas, portanto em meio à riqueza do agronegócio há ''bolhas de miséria''. O mesmo ocorre em Maravilha, Guaravera e Lerroville. Esta reflexão é pertinente a partir da indicação da mesma reportagem que destaca que, proporcionalmente, os distritos de Londrina concentram mais famílias pobres do que a zona urbana.
Sabe-se também que tais distritos desde meados da década de 1960 iniciaram um efetivo processo de modernização da agricultura. A consequência foi o aumento na safra de grãos e a incorporação de máquinas e insumos na produção. Por outro lado, houve um forte êxodo rural, sendo a década de 1980 considerada como o apogeu da pauperização e expulsão dos habitantes do campo. Paiquerê não ficou alheio a tais acontecimentos. Era um distrito com sua economia baseada no café de 1950 até meados de 1970, depois veio o cultivo de algodão e rami que empregou efetiva mão de obra (em especial trabalhador volante que neste ínterim morava na sede do distrito). Após a década de 1990, estas culturas foram quase que totalmente substituídas pelo binômio soja/trigo que desde o início da década de 1980 já aparecia como cultura predominante em algumas propriedades. Não é novidade que a pouca escolaridade das pessoas que passaram habitar a sede dos distritos após tal processo relega aos mesmos ocupações de baixa remuneração, o que de certa maneira elucida a renda efêmera de muitos habitantes de Paiquerê e dos outros distritos.
Com esse panorama, temos alguns questionamentos pertinentes: como criar políticas públicas municipais, estaduais ou federais para que essas famílias possam comer do ''bolo'' do segundo ''milagre econômico'' vivenciado pelo Brasil nos últimos anos? Como distribuir renda em comunidades de forte concentração de uso da terra? O investimento em educação em tais lugares pode garantir aos filhos dos que responderam os questionamentos do censo melhores condições de vida no futuro? Por que os distritos de Londrina estão tão esquecidos pelo poder público? Quais as medidas que serão tomadas agora que temos tais dados?
Penso que a população de Paiquerê e dos outros distritos ganharam um aliado importante em suas reivindicações frente o poder público. Antes se imaginava que havia muita pobreza nestes lugares historicamente renegados pelas políticas públicas, por concentrar pessoas simples e humildes, agora ela é real: estão demonstradas por percentuais medidos por umas das instituições mais sérias do país.

MARGARIDA CÁSSIA CAMPOS é professora adjunta do departamento de Geografia da Universidade Estadual de Londrina

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