ESPAÇO ABERTO
Solo: de coadjuvante a ator principal?
A data de 5 de dezembro foi designada há alguns anos pela União Internacional de Ciência do Solo, uma sociedade científica de caráter global, como Dia Mundial do Solo. Infelizmente, essa data tem sido apenas uma entre tantas semelhantes e tem passado despercebida por várias razões, entre elas, a ausência de divulgação por parte da própria entidade que a criou e de governos nacionais e organismos multilaterais que deveriam estar sensíveis ao tema. Alguém poderia perguntar também: por que comemorar ou homenagear algo tão óbvio e tão comum?
A resposta é simples: mais do que nunca, a sociedade precisa ter consciência de que, num planeta de 7 bilhões de habitantes, essa camada que recobre o globo é um sistema complexo que sustenta a vida humana, mas é suscetível à degradação e pode ser considerado um recurso natural não renovável (quando medido na escala antropológica do tempo). Em sentido amplo, essa camada é denominada pedosfera (como parte interativa de outros sistemas terrestres - biosfera, atmosfera, hidrosfera e litosfera) e, em sentido estrito, é chamada de solo.
O Brasil, em seus 851 milhões de hectares de área territorial, possui centenas de tipos de solos, agrupados em treze ordens (o nível hierárquico mais alto na classificação dos mesmos), das quais a mais representativa é a Ordem dos Latossolos, que são aqueles solos mais profundos em paisagens de relevo suave-ondulado e estão presentes em todos os biomas.
Descontando-se a área coberta por águas (cerca de 16 milhões de hectares), os solos brasileiros se estendem por 835 milhões de hectares, onde as lavouras e pastagens ocupam cerca de 40%, as florestas e áreas protegidas cerca 50% e os 10% restantes se referem a cidades, estradas, etc. São números que impressionam. No entanto, uma análise qualitativa mostra que temos ainda muitos problemas decorrentes do mau uso que é dado a esses solos, quer seja na agropecuária (exaustão nutricional, erosão hídrica e eólica, poluição, salinização, etc.), nos espaços urbanos (impermeabilização, deslizamentos, etc.), nos taludes e leitos de rodovias e ferrovias (quedas de barreiras, voçorocas, etc.) ou ainda na mineração (espaços degradados por rejeitos, escavações, etc.).
Se as constatações citadas acima com foco no Brasil fazem sentido para justificar a existência de um dia especialmente dedicado ao solo, muito mais o fazem quando transpostas para a escala mundial, pois os problemas se agravam em muitos países asiáticos e africanos, principalmente. E se o solo fundamenta a vida no planeta pelas funções que lhe são inerentes (base para produção de alimentos, fibras e energia; sustentáculo de cidades e infraestrutura de transportes; fonte de matéria-prima e biodiversidade; suporte dos grandes ciclos biogeoquímicos, principalmente do carbono; armazenamento, filtragem e transformação de resíduos; provisão de água doce; herança cultural e registro da história da humanidade), então é possível refletir sobre a pergunta título deste artigo: não está na hora de restituir-lhe seu papel fundamental no campo das preocupações ambientais e do desenvolvimento sustentável? Talvez a Conferência Rio+20, em junho/2012, venha a ser o fórum que precisamos.
GONÇALO SIGNORELLI DE FARIAS é pesquisador do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar) e presidente da Sociedade Brasileira de Ciência do Solo





