A morte de um Bosque
Morrer duas vezes não exprime corretamente a história recente e mesmo a antiga do Bosque na área central de Londrina. Talvez, nunca esteve vivo. Usos variados, revitalizações anódinas, depredações, degradações, homicídios, etc. A lista de acontecimentos neste espaço público consta (e realmente constou) nas várias colunas de um jornal. Agora o Bosque de Londrina, morre duas vezes, uma pelo corte de árvores nativas e outra por ser cortado ao meio pelo asfalto.
Essas mortes do Bosque vêm de encontro com a política da Prefeitura de Londrina em relação ao Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da cidade, ou seja, a política do trator e do autoritarismo nas decisões deste porte. Passa-se o trator em tudo o que é velho e degradado, em nome do novo, do bonito, do moderno, mas nem há a discussão da manutenção/conservação do que foi ''reconstruído'' e muito menos a aceitação da opinião publica que, muitas vezes, se manifesta contrária às atitudes da prefeitura. O Calçadão foi um exemplo disso ano passado: foi destruído o antigo, por não ter sido conservado e está sendo substituído por um novo piso, que pela demora em terminar a obra provavelmente terá de ser refeito novamente, pois aqui não há conservação do patrimônio.
A discussão no Bosque gravita em torno do benefício para o trânsito da cidade, como se asfaltar mais um pedaço de chão facilitasse na chamada mobilidade urbana. Primeiro, a prefeitura não dá conta de recuperar o asfalto esburacado de toda a malha urbana, o que é feito é insuficiente e está basicamente focado em áreas ''especiais'' do município. Segundo, parte também da perspectiva de que asfalto é desenvolvimento e que aliviaria o fluxo de trânsito. Ora se isto fosse verdade, São Paulo não teria congestionamentos quilométricos, pois o que mais temos lá é justamente asfalto!
Evidentemente que olhar o Bosque na situação em que se encontra não é agradável, passar por ele então é um desafio para poucos, nem podemos comentar em relação a utilizá-lo como área de lazer. A cidade pretende revitalizar o espaço, pois eu pergunto: para quê? Se em alguns meses ou dias, tudo estará novamente como antes. Algum burocrata, chefe de gabinete, administrador público pensou por algum momento em conservação e manutenção da área? Não digo com isto passar um carro-pipa pelas manhãs ''limpando'' a sujeira dos pombos e formando poças de águas malcheirosas, mas um programa de limpeza sistemática, organização de atividades, plantio de árvores e cuidados com a fauna e a flora já existente. Revitalizações e reformas foram feitas aos montes ali, praticamente toda nova administração realizou duas ou três, basta ver os jornais dos últimos 20 anos.
O Bosque perdeu o sentido que havia sido atribuído a ele na fundação de Londrina, enquanto uma área de memória da mata original do Norte do Paraná, ou em anos subsequentes, como área de lazer e de comemorações. Atualmente o Bosque não tem um sentido definido aos londrinenses, espaço de passagem de uma parte a outra do Centro. Porém, uma transição onde os pedestres andam indiferentes ao verde em sua volta, mas não indiferentes à situação lastimável que se encontra o Bosque. Espero que essas manifestações da população e o debate em torno deste espaço possam render uma nova imagem do Bosque para os moradores da cidade. E espero também que esta política da prefeitura de ignorar o valor do patrimônio, que aliás vai na contramão do que tem sido feito em outras cidades do Brasil e do mundo, tenha um peso nas próximas eleições municipais.

ROGER D. COLACIOS é historiador em Londrina e doutorando em História Social pela USP

mockup