ESPAÇO ABERTO
Trânsito urgente!
O ''bicho'' homem moderno é um ser essencialmente urbano. No século passado, a evasão rural e a industrialização determinaram crescimento, em regra desenfreado, das grandes cidades. O homem contemporâneo tem ''o pé asfáltico'', ou seja, mesmo o tradicionalmente ''pé-vermelho'' londrinense, atualmente, se da geração mais jovem, talvez não possua o sagrado pigmento em seus pés.
Esse ser humano contemporâneo tem o meio urbano como seu habitat natural. A grande maioria mora nas cidades, mas mesmo quem habita o campo depende desse meio para sobreviver. Para além disso, a urbe é seu nicho. Sem esse aglomerado de concreto e asfalto não mais se vive. Como um peixe fora d'água, não vive o homem sem a concepção moderna do urbano.
Nessa selva impermeável e caótica, ao primeiro passo fora de seus lares, é inevitável e inexorável deparar-se com o trânsito. Comer, trabalhar, visitar, estudar, descansar, comprar, passear, tudo demanda deslocamentos, muitas vezes impossíveis há cem anos. Essa entidade, ''o trânsito'', é conceito visceral das cidades contemporâneas.
Entretanto, não há quem não tenha visto em um filme, ou filmagem antiga, pequenos aglomerados urbanos com seus primeiros carros e transeuntes disputando espaço sem aparentes regras. Pois é, elas não existiam mesmo, vieram depois. Dessa relação, trânsito versus homem, que diminuiu distâncias, aproximou pessoas e determinou progresso humano incomensurável, surgiu também faceta nefasta de traumas, mutilações e mortes.
Hoje morre-se mais em um único final de semana prolongado de carnaval no Brasil, que em anos de conflitos militares em diversos locais do mundo. Os números são de verdadeira guerra civil não declarada, silenciosa, verdadeiro fratricídio urbano, em que cidadãos morrem ou sobrevivem mutilados em acidentes dia após dia. A sociedade, e também o Estado, ao que parece, assistem atônitos, horrorizados e paralisados a tudo isso há mais de 10 a 20 anos.
Na guerra, quando as forças jazem, temporariamente, abatidas e desorganizadas de todos os lados, declara-se armistício. Façamos, pois, um ''transistício'' urgente. Respeitar as leis de trânsito já é obrigação, passível de penalidades, inclusive, quando do descumprimento. Não é o suficiente, pois o gênero humano deve ir além. Urge temperança, cordialidade, respeito, solidariedade, cautela, enfim, fraternidade e, sobretudo, urbanidade a esse homem urbano no convívio com seus iguais nas ruas das cidades.
Senhoras e senhores, peço, humildemente e sinceramente, a todos que reflitamos a situação do nosso trânsito. Metáforas à parte, não temos como viver sem transitar pelas ruas e rodovias do mundo contemporâneo. Sim, no xadrez urbano as vias são asfálticas e todos somos reis em constante ameaça de xeque-mate. Não é possível, tampouco aceitável, que continuemos a nos matar e mutilar dia após dia. Deve-se educar para o trânsito desde criança. É questão de sobrevivência. É, sobretudo, questão de fraternidade, respeito e amor ao próximo para que haja vida no trânsito.
FLÁVIO H M SANT'ANNA é médico e mestrando em Saúde Coletiva pela Universidade Estadual de Londrina





