Mesmo que seja Lula, por que não?
Concordo com o posicionamento ético do dr. Omar Taha no artigo ''Mesmo que seja Lula'' (Espaço Aberto, 11/11) quando diz que devemos tratar com solidariedade e ética o fato do ex-presidente Lula estar se tratando de um câncer. Todavia discordo da leitura que ele fez quando relata o desabafo de uma pessoa que manda Lula se tratar pelo SUS. Vejo por outro ângulo o que se passa na cabeça daquela pessoa angustiada e descrédula.
Vejamos o acontecido pelos olhos da pessoa que trabalha de sol a sol, como a maioria dos brasileiros, mas peguemos como paradigma uma pessoa pobre, que paga seus altíssimos impostos e não consegue sobreviver com dignidade. Que não tem condições de pagar um plano de saúde e quando precisa de um médico para si ou para o seu filho, tem que ficar horas, dias ou até meses para serem atendidos por um especialista. Se tiver que ser submetido a uma cirurgia então, este prazo pode ser de anos.
Por ouro lado, vê nos jornais, nos programas televisivos, nas revistas que os filhos de pessoas que foram eleitas para governar nosso país do dia para a noite deixam de ser assalariados para se transformarem em milionários das telecomunicações e agronegócio. Vê ministros desviando fortunas. Sentem a saúde pública cada vez mais precária, mais sucateada, mais desumana.
Por óbvio que o trabalhador que tem que se submeter ao tratamento precário do SUS irá desejar que o mesmo tratamento fosse aplicado ao mandatário do país, que teve o dever de cuidar da estrutura da saúde e não o fez e, pior, deixou que desviassem o dinheiro da sua estruturação sem tomar as devidas providências, para não desestabilizar os conchavos políticos.
A meu ver, desejar que Lula ou qualquer outro mandatário submeta-se ao tratamento de qualquer doença pelo SUS não é falta de ética, nem falta de solidariedade, tampouco desumanidade. Ao contrário, se empenhar para ser eleito para governar o país, receber toda a glória do cargo e deixar de dar a devida estrutura ao sistema de saúde, deixá-lo sucatear-se, não enviar as verbas e os equipamentos necessários para que a população seja bem atendida, isto sim é falta de ética, é falta de solidariedade, e sobretudo é desumano.
Falta de ética é desviar dinheiro da saúde pública e ver pessoas literalmente morrendo nas filas de consultas de hospitais, após passar dois ou três dias sem ser atendidos. Falta de solidariedade é ver famílias sendo destroçadas, quando morre um ente por falta de atendimento ou uma mulher grávida quando perde seu filho por falta de UTI neonatal.
Desumano é ver diuturnamente crianças ficando com sequela e tendo seus futuros tolhidos por falta de remédios em postos de saúde para combater doenças de grau médio.
Assim, o fato de uma pessoa angustiada desejar que um ex-presidente abandone o Hospital Sírio-Libanês (que é o mais caro do País) e se submeta ao mesmo tratamento que ele e a grande maioria da população brasileira terão que se submeter se tiver um câncer, não é falta de ética, não é falta de solidariedade, tampouco desumanidade, é apenas um desabafo.
Brasileiros, desabafem sempre, mas também votem sempre por um país melhor e não por promessas utópicas e impraticáveis de quem quer o poder a qualquer preço.

CELSO LUIZ TENÓRIO ARAÚJO é advogado em Londrina

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