ESPAÇO ABERTO
Mesmo que seja Lula
Estava numa banca de jornais dias atrás e me surpreendi com a reação de uma cliente que, ao ver as capas das revistas semanais daquela semana, disse: ''Não tem como escapar desta figura horrível do Lula?''. E completou: ''Quero ver se ele vai tratar esse câncer pelo SUS''. Depois, saiu pisando firme. Já tinha visto a campanha na rede social facebook - ''Lula, vá se tratar no SUS'' - e já previa o que viria a acontecer.
Agora, estou recebendo e-mails, inclusive de pessoas supostamente ''éticas'', desancando o ex-presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva e o obrigando a se tratar pelo SUS como se ele tivesse que se submeter a um remédio amargo como castigo pelo fato de ser um político famoso e pelas eventuais peripécias que aprontou durante seus oito anos de governo. E vejam que o SUS, apesar das críticas, tem um tratamento de boa qualidade em especialidades oncológicas.
Fiquei pensando: que triste ética essa que se espalha por todos os lados um sentimento de raiva, vingativo como se a própria doença fosse uma espécie de ''castigo merecido'' que o tal político tem que enfrentar, se possível da pior forma possível, ''pelo SUS'' , enfrentando dificuldades e até com uma pontinha de desejo tipo ''tomara que o tratamento não dê certo''.
Fico cada vez mais estupefato e surpreendido com as reações que as pessoas têm em relação às doenças dos políticos famosos - ''se você é famoso prepare-se, qualquer coisa nós vamos torcer para que você se dê mal no seu tratamento!''.
Considero essa uma atitude absolutamente antiética, desumana, típica de uma sociedade que vive uma grave patologia relacionada à banalização frente à doença, frente à morte, frente aos princípios mais básicos de solidariedade e união da espécie. E me surpreendo também que isso não seja óbvio para a maior parte das pessoas.
Se Lula foi ou é um político que algumas pessoas não gostam - no meu caso nunca votei nele, mas não deixo de admirar alguns aspectos da sua história, assim como considero péssimos outros -, a questão da doença do ex-presidente da República deve ser tratada com muita solidariedade e com todo apoio que se deva dar a qualquer ser humano com esse tipo de problema.
Vamos nos colocar, por exemplo, no papel de médico do Lula ou de qualquer outro político. Então, se discordarmos das ideias desse indivíduo vamos tratá-lo de forma diferente ou inferior, vou deixar de utilizar todos os recursos que estejam disponíveis para tentar curá-lo ou aliviar o seu sofrimento? Ora, e se fosse o traficante Fernandinho Beira-Mar também deveríamos tratá-lo mal ou desejar a sua morte?
Bem, nesse momento, dependendo da forma como você respondeu intimamente a essa grave questão ética e a forma como ela vem ocupando os espaços da mídia, torna-se mais grave ainda configurando-se uma patologia social.
Sou médico, por dever de ofício, sou obrigado a tratar de políticos igualmente como a qualquer outro indivíduo, mais ou menos rico, mais ou menos famoso, mais ou menos criminoso.
E nós todos somos indivíduos da raça humana e devemos respeitar a doença de outros seres como nós desejando a sua melhora, a sua recuperação e ainda que tenha o melhor dos tratamentos.
Mesmo que seja o ex-presidente Lula!
OMAR TAHA é médico em Londrina





