Doenças graves exigem respostas rápidas
Muitas pessoas conhecem a artrite reumatoide, doença inflamatória bastante comum no país - acomete cerca de 1% da população, segundo o Ministério da Saúde - e que atinge as articulações, podendo deixar sequelas irreversíveis. A imagem de alguém incapaz de mover os dedos ou joelhos, impossibilitada de realizar atividades cotidianas, é recorrente na artrite reumatoide, incidente principalmente em adultos.
A esse problema articular, adicione febre, fígado e baços aumentados e até inflamação do periocárdio, em um verdadeiro quadro de comprometimento geral do estado de saúde da pessoa. Essa é a descrição da artrite idiopática juvenil sistêmica (AIJS). A diferença mais cruel é que esta última, como revela o nome, ocorre em crianças, com prevalência entre 1 e 3 anos de idade.
A doença é tão grave que, em muitos casos, o diagnóstico se confunde com leucemia. Diante de quadro tão sério, é necessário constatar que o tratamento no Brasil ainda é cheio de falhas. A questão emergencial é que metade das crianças com artrite idiopática juvenil sistêmica não responde aos medicamentos convencionais, necessitando de tratamento com as chamadas drogas biológicas, mais complexas e feitas a partir de células vivas.
Esses pais e mães têm de passar por uma verdadeira jornada de dificuldades. Para artrite, o Sistema Único de Saúde (SUS) disponibiliza apenas a primeira geração dos biológicos, chamados de anti-TNFs. Essas drogas não têm indicação para uso na AIJS e apresentam baixa eficácia nesse grupo de crianças. No cenário atual, não há disponível no Brasil medicamentos eficazes para artrite idiopática juvenil sistêmica.
No entanto, aguarda aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) o primeiro biológico com indicação para o tratamento da AIJS. É importante a aprovação mais célere possível do tocilizumabe. Já utilizado em crianças da Europa, Estados Unidos e Japão, o medicamento é capaz de induzir a remissão da doença nesse grupo de pacientes - que, reforço, representam metade do total. O tocilizumabe já é aprovado para artrite reumatoide no Brasil, mas somente para uso em adultos. Os médicos, mesmo cientes da comprovada eficácia em crianças, precisam que a nova indicação seja aprovada para prescrevê-lo com chance de que ele seja entregue a quem precisa. A aprovação do medicamento irá mudar a evolução das crianças com esta grave forma de artrite, hoje sem opção terapêutica.
Claro que a decisão positiva da Anvisa não significa a disponibilidade imediata da droga no SUS, mas facilita a adesão de planos de saúde. Mais espertos que o sistema público, as operadoras fazem as contas e percebem as vantagens financeiras em fornecer de uma vez o medicamento mais indicado, ao invés de obrigar o paciente a utilizar os anti-TNFs, que não funcionam, antes de recorrer a outro tratamento, como ocorre na rede pública. Para usuários do SUS, também haverá vantagens do ponto de vista do acesso, embora não da maneira ideal. O atestado da Anvisa facilita as decisões favoráveis de juízes em ações de demanda de medicamentos. É como as demais drogas de alto custo: diante da negativa do governo, a justiça garante o direito à saúde. A judicialização é um problema que o governo, mais cedo ou mais tarde, terá que decidir como lidar, de maneira viável econômica e socialmente.
No processo de avaliação pela Anvisa, é preciso parar de falar em custo financeiro. Trata-se do controle de uma doença gravíssima em um grupo hoje desassistido de crianças. Trata-se, enfim, de dar solução a famílias que, perdidas, viram outros tratamentos falharem.

MÁRCIA BANDEIRA é responsável pelo serviço de reumatologia pediátrica do Hospital Pequeno Príncipe em Curitiba e membro da Sociedade Brasileira de Reumatologia e da Sociedade Brasileira de Pediatria

mockup