Londrina e seu patrimônio
Numa cidade tão jovem como Londrina, temos uma tendência a esquecer que esta cidade tem uma história. Parece que só reconhecemos aquelas histórias muito antigas que se perdem no tempo. Em consequência, Londrina já viu ruir muitos de seus edifícios, e muito do que era seu patrimônio, seja cultural ou natural, já foi posto abaixo.
Na década de 70, a antiga catedral foi demolida para dar lugar ao que chamaram de ''tenda de Deus entre os homens''. As gerações de hoje e as futuras não poderão contemplar e vivenciar a beleza da antiga matriz neorromânica inaugurada em 1943. Do mesmo modo, muitos outros edifícios foram demolidos em nome do progresso e bem-estar. O mesmo acontece atualmente com centenas de casas de madeira que são destruídas e com elas a riqueza peculiar da cultura e história da região. Suas tábuas de peroba e pinho são transportadas até mesmo para outros Estados, onde são transformadas em móveis, que depois retornam à cidade como cadeiras, armários, etc. É o poder da especulação imobiliária que devora tudo em função do lucro.
Nesse processo, corremos o risco de termos histórias, memórias e identidades apagadas. O poder público, ao invés de proteger esses bens, age, muitas vezes, com descaso e irresponsabilidade. Para constatar esse fenômeno, vale aqui um pequeno exercício de memória.
Quem se lembra qual o prefeito que canalizou o Córrego das Pombas, na década de 70? Já naquele período era um córrego poluído, mas que compunha um vale extenso que cortava a cidade de Norte a Sul. Sobre este córrego foi construída o que chamamos hoje de ''Via Expressa'' ou Avenida Dez de Dezembro. Quem se lembra também qual o governante que, na década de 80, fez a tão sonhada transposição da linha férrea, que dividia a cidade em duas e causava horrendos acidentes? Junto a essa transposição, esse mesmo prefeito demoliu vários barracões e casas construídos no início da colonização, cujo potencial para a cultura e o lazer era enorme.
Cidades como Porto Alegre e Belém, e muitas outras pelo mundo afora, conservam suas docas - secas ou molhadas - destinando-as ao lazer e à cultura. O mesmo prefeito edificou no lugar dessas construções históricas, um Terminal Urbano e postos de saúde, os quais poderiam muito bem ser situados em outro espaço mais estratégico. No lugar da via férrea, construiu uma via ''Leste-Oeste'', como se o trânsito de veículos não tivesse outra alternativa, a não ser passar pelo Centro da cidade.
Houve também um prefeito que construiu vários lagos, que todos passaram a chamar graciosamente de ''Igapó''. Porém, um outro prefeito, aterrou um desses lagos, causando um dano ecológico incalculável para a cidade, pois ali viviam espécies ameaçadas e bandos de aves em migração.
A história prossegue penosa e triste. Houve o tempo em que outro chefe do município mandou retirar todas as placas e letreiros do mesmo modo antigos e históricos, os quais muitos de nós identificávamos desde a infância. Retirou também as bancas de revistas e varreu das vias públicas os vendedores de frutas, além de outros ambulantes, atos esses denominados de ''Cidade Limpa''. Tal ''limpeza'' atingiu em cheio a tradição e cultura do lugar. Bem, essa história de limpeza da cultura das ruas é muito recente; ainda não esquecemos.
Tenhamos sempre lembrança desses atos, e que não seja tarde demais para preservar, em gestos de respeito e consciência, a diversidade cultural e a história da cidade. Cabe ao poder público garantir a proteção de nossos bens culturais e históricos, de modo que haja projetos de preservação e conservação do patrimônio, seja a fachada de uma pequena construção ou ainda a cultura das pessoas simples que trabalham nas ruas.

FERNANDO A. STRATICO é professor do departamento de Música e Teatro da Universidade Estadual de Londrina

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