O atraso da violência e da corrupção
Há anos alerto sobre o alto grau de letalidade de nossas ações policiais. Ouvi muitas vezes a tradicional frase de que o morto era ''vagabundo'' e que tinha havido resistência. Até parece que nosso Código Penal prevê pena de morte para o crime de resistência. Outro antídoto para acalmar a opinião pública era demonstrar que o ''morto em ação'' tinha envolvimento com drogas. O termo ''envolvimento'' explicava tudo, pois o capitão Nascimento disse que o traficante só existe porque existe o usuário. E se o ''Nascimento'' falou, pronto, é verdade. Simples assim.
Agora, no caso da juíza carioca Patrícia Accioly tudo ficou muito confuso. Ela não registrava antecedentes criminais. Não tinha ''envolvimento'' com drogas. Era uma magistrada rigorosa e respeitada. Nesse caso, o único erro cometido pela juíza foi acreditar que diante da inoperância de todas as demais autoridades, ela sozinha fosse capaz de oferecer qualquer tipo de ''resistência'' contra policiais-bandidos que sentem extremado prazer em torturar e matar. De repente, todos se indignaram. Várias autoridades mantiveram durante anos um silêncio comprometedor. Alguns, nos bastidores, falavam até que a PM sim, era verdadeira ''polícia'', porque ''resolvia a parada''. Muitas vezes, cheguei a imaginar que as execuções eram uma política adotada e incentivada por alguns governantes, pois com um efetivo reduzido de policiais assassinos consegue-se manter certo ''controle'' da criminalidade. Tendo como base de ação, o terror, não haverá necessidade de grandes investimentos.
Muitos consideram os militantes de Direitos Humanos como meros burocratas e sem nenhuma noção do risco da atividade policial. Há longos anos venho me dedicando às pesquisas sobre o tema tortura e corrupção no meio policial. O campo de pesquisa, por razões óbvias, não é muito extenso, face a dificuldade de identificação segura do policial notoriamente violento e corrupto, o que já é um fator positivo. Em passado recente, alguns se vangloriavam e competiam em seus atos de corrupção. Interessante observar que a cada dez policiais adeptos da tortura e da violência desnecessária, poucos deles conseguirão encerrar normalmente suas carreiras. Uns terão sérios transtornos psicológicos que os acompanharão pelo resto de suas vidas. Todos sem exceção, enfrentarão gravíssimos problemas familiares que os obrigarão a constituir outras famílias, avolumando ainda mais os problemas iniciais. Dos dez, apenas dois encontrarão um outro caminho de vida possível através da religião. Outros chegarão ao extremo de praticar suicídio.
Portanto, quando contestamos a violência policial, não estamos agindo contra o policial, mas de certa forma protegendo sua mente, sua carreira e seus familiares. Um policial com transtornos psicológicos é uma séria ameaça à toda sociedade. Muitos adeptos da violência ainda são incapazes de compreender a razão de nossa luta. Não podemos esquecer que na questão do holocausto, Hitler não teria ido tão longe sem o apoio irrestrito das polícias, que aceitaram executar tamanha covardia contra pessoas completamente indefesas. Hitler, sozinho, nada poderia fazer. Quase 70 anos depois, os defensores de Direitos Humanos ainda são vistos com reservas. Muitos militantes adotam medidas equivocadas nessas questões, pois acabam por esquecer completamente as vítimas e se preocupam somente com o algoz, quando deveriam proteger a ambos.
Atravessamos um momento extremamente perigoso em nossa sociedade. A busca de soluções para o problema da criminalidade e do terrorismo começa novamente a caminhar para uma espécie de ''solução final''. A polícia deve estar atenta para não sucumbir de novo à tentação de aceitar qualquer tipo de missão. Às vezes, entendo que é difícil, mas a Bíblia diz que devemos vencer o mal com o bem. Seguindo esse caminho, nunca teremos do que nos arrepender ou do que se envergonhar no futuro.

CLÁUDIO MARQUES é delegado de Polícia e coordenador-geral de ações da Comissão de Direitos Humanos ''Irmãos Naves''

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