Greve dos Correios
Vivemos em um país abastado em diversos segmentos, mas que infelizmente não distribui de maneira igualitária suas riquezas. Existem hoje no Brasil centenas de milhares de pessoas que se mantêm com menos de R$ 100/mês, fato que as coloca abaixo da linha miséria e da dignidade humana. São dados oficiais do próprio IBGE que fazem despontar essa triste realidade, incluindo parte significativa da nossa população acachapados em condições de extrema pobreza. É tão manifesta a evidência de tal fato, que a nova marca do governo federal, firmado pela presidente Dilma Rousseff, expressa que ''país rico é país sem pobreza''.
Apesar de abundantes recursos hídricos, minerais e de nossa elevada produtividade econômica - somos uma das maiores economias do mundo - vivemos uma realidade precária, com notícias constantes de pessoas maltratadas em filas de hospitais; jovens poucos escolarizados assassinados por motivos banais; professores mal remunerados ameaçados por alunos; e outras estampas televisivas nada animadoras.
Não bastasse o fato de nossas principais instituições públicas - saúde, educação e segurança - prestarem serviço de pouca qualidade, somos ainda o país da corrupção, do imposto e da impunidade. Consente no clamor das ruas, no burburinho do dia a dia, que somos o país da farra do dinheiro público e da irresponsabilidade para com os interesses coletivos. Uma sociedade menosprezada pelos seus representantes, eleitos democraticamente, que pouca sintonia mantêm com o interesse público, com aquilo que é do bem comum da coletividade.
Contudo, o homem só existe em sociedade. O indivíduo que se isola acaba por perecer. A ideologia que aposta no triunfo do individualismo corre o risco de destruir a existência social e os valores comumente partilhados que nela são praticados. Nesse sentido, os responsáveis pelas mazelas sociais não são apenas as autoridades públicas alheias à sociedade, mas igualmente todo cidadão que se omite de fiscalizar ou de reivindicar legitimamente os direitos que lhe pertence, ademais os de sua classe e, sobretudo, aqueles inerentes à própria manutenção social.
Tal fato fica ainda mais claro em um movimento grevista. Pois é neste momento - o de uma greve - que o trabalhador pode dizer ao seu empregador em alto e bom tom um singelo não a tudo aquilo que fere sua honra e dignidade. A greve dos Correios que paralisou importante segmento do serviço público exige do governo federal maior atenção às reivindicações dos trabalhadores que fazem dessa empresa orgulho nacional.
Sabe-se que milhares de pessoas, ao longo do século 20, dedicaram esforços e até mesmo vidas, para que gerações futuras pudessem usufruir de direitos básicos como participação política e mobilização social. É triste e lamentável que a desinformação e desmobilização façam com que parte significativa dos trabalhadores ''joguem na lata de lixo'' essa conquista. Equivocadamente, não percebem que a greve é direito assegurado institucionalmente, admissível como forma alternativa de fazer avançar a luta por melhores salários e condições de trabalho e, consequentemente, no caso dos Correios, melhor qualidade na prestação de serviço à sociedade.
Firmar atitude favorável pela greve dos Correios não é se posicionar contra a sociedade. É, antes de tudo, lutar para que os serviços prestados pelos Correios, empresa reconhecida nacionalmente por servir de elo na comunicação dos brasileiros, tenham a qualidade e a rapidez que lhe é habitual. A responsabilidade por um país melhor, por uma sociedade mais justa e por uma Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos (EBCT) eficiente e melhor é de todos nós. Sem a omissão dos trabalhadores nesse momento decisivo de luta, certamente iremos mais longe e ganharemos todos nós: os trabalhadores, a sociedade e o país.

EDERALDO ROGÉRIO BANNWART é funcionário da EBCT e sociólogo em Londrina

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