ESPAÇO ABERTO
PUBLICAÇÃO
sábado, 01 de outubro de 2011
Luis Miguel Luzio dos Santos 
Londrina é uma cidade que serve de modelo para se entender a realidade brasileira. Prestes a completar 77 anos de fundação, destaca-se pelo vigor econômico, espírito empreendedor e capacidade de surpreender e inovar. O Produto Interno Bruto (PIB) da cidade já ultrapassa os R$ 8 bilhões e ocupa o 51º lugar entre os 5.565 municípios brasileiros.
Impressiona a quantidade de prédios, o pujante comércio, a quantidade de universidades, algumas de referência nacional, um centro de saúde diversificado e com áreas de excelência, arquitetura arrojada e imponente, parece que estamos diante de uma cidade modelo.
Porém, esta realidade esconde uma outra Londrina muito menos glamorosa, que em vez de nos orgulhar demonstra o descaso, a desumanidade e a incapacidade de priorizar-se o bem comum. A cidade ocupa a 193 posição no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) e mantém um cinturão de pobreza que soma 72 favelas onde precariamente vivem cerca de 150 mil pessoas, e destas 50 mil são consideradas no limiar da miséria.
Em decorrência de uma cidade dividida, resultam índices de violência que nos amedrontam, 114 homicídios em 2010, o que faz com que os muros das residências mais abastadas subam proporcionalmente ao desequilíbrio social.
O modelo de cidade que somos convidados a construir, certamente não deve ser medido pelo número de milionários, mas pela ausência de pobreza; nem tão pouco pelo número de condomínios de luxo, mas pela ausência de favelas; também não é pelo tamanho dos arranha-céus, mas pela quantidade de parques e áreas verdes, não deve ser representado pelo número de condomínios fechados, mas pela ausência de necessidade de muros. O desenvolvimento não deve ser medido pelo montante de riqueza, mas pela ausência de pobreza.
Precisamos de um desenvolvimento desigual, que seja capaz de privilegiar assimetricamente os que ao longo da história foram desprezados e negligenciados, só assim podemos corrigir e avançar para um verdadeiro progresso civilizatório.
Tudo passa por uma redefinição de prioridades, iniciando pelos que foram motivo de descaso e excluídos da riqueza da nação num verdadeiro processo de apartheid social.
A mudança na face da cidade de Londrina tem de partir das periferias para o centro, pois só assim poderemos unir as duas Londrinas que vergonhosamente mantemos separadas.
Nesse sentido, impõe-se o fortalecimento dos serviços públicos essenciais, como a saúde, que deve ser assumida pelo governo municipal em vez de terceirizada; investimento potencializado em programas de educação integral de qualidade, iniciando pelos bairros de menor IDH; disseminação de centros de lazer, cultura e esporte nas periferias, com um calendário anual de atividades; intensificação do mecanismo de cotas sociais e raciais nas universidades públicas, a exemplo do que foi recentemente aprovado pela Universidade Estadual de Londrina (UEL); rever a planta do IPTU alinhando-se com a nova realidade da cidade, onerando com maior incidência os mais privilegiados; apoio e incentivo a empreendimentos de economia solidária, como forma de geração de trabalho e renda cooperativa, fortalecimento das associações de bairro e adoção do orçamento participativo, ampliando o processo democrático, descentralizando o desenvolvimento.
LUIS MIGUEL LUZIO DOS SANTOS é doutor em Ciências Sociais e professor do departamento de Administração da Universidade Estadual de Londrina
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