ESPAÇO ABERTO
Educadores e técnicos de futebol
Com a divulgação dos resultados do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2010, a educação brasileira ressurge na pauta das discussões. A despeito da aquarela utilizada para pintar o cenário - isto é, da matriz de referência do Enem como régua privilegiada para medir aprendizagens - as realidades vividas por educadores no cotidiano da sala de aula se mostram de forma crua e, por assim ser, deixam ver o que há muito se denuncia.
No entanto, é preciso refletir sobre os modos como essa realidade vai sendo construída e percebida pela sociedade e, muito particularmente, como vamos incorporando a ideia do professor como o principal culpado pelas derrotas, em detrimento de um sistema complexo e de uma estrutura educacional deficiente e atrofiada.
Edição recente da Revista Veja (ano 44, nº 38), por exemplo, afirma que ''várias razões explicam o cenário de terra devastada - a começar pelo despreparo dos professores'' (pág. 93), ecoando a tônica do editorial que aponta este como ''o principal fator'' do ''descalabro do ensino''. Na mesma revista, mais à frente, Claudio de Moura e Castro, educador formado em Economia - ou economista que se tornou educador, o que, como ele argumenta, tanto faria - apresenta um plano para equacionar o problema que, depois de reduzido ao professor despreparado, pode ser resolvido por meio de sete ações copiadas, superficialmente, de modelos de outros países. Sem surpresa, uma delas sugere que ''excelentes profissionais sem licenciatura'' assumam as salas de aula. O pressuposto básico e evidente é o de que, para ser bom professor, basta domínio de conteúdo.
Fato é que de educação e futebol todo brasileiro acha que entende o suficiente para propor metas, definir projetos e indicar estratégias. Na contramão de experiências bem-sucedidas, pensadas e empreendidas por professores que estão no cotidiano das escolas, gestores e tecnocratas da educação se voltam para discursos de impacto nos noticiários, mas de pouca eficácia na rotina escolar.
Compreensível. Não é fácil lidar com as complexidades que envolvem educação, porque educação e sociedade se constituem mutuamente. Falar de um sistema educacional falido é falar de uma sociedade para a qual a educação não tem valor nela mesma; uma sociedade, portanto, também falida naquilo que é essencial para seu desenvolvimento: a produção do saber. Assim, reconhecer fatores como salas quentes, abarrotadas de carteiras e apinhadas de alunos, escolas sucateadas sem condições apropriadas para que se aprenda qualquer coisa de forma prazerosa, salários que não condizem com a ''política de valorização do professor'', jornadas de trabalho extenuantes em várias escolas no mesmo dia, ausência de espaços colegiados, contratações precárias de professores temporários que não conseguem criar vínculo sequer com a comunidade escolar, políticas de aprovação automática na série sem programas de apoio pedagógico ou recuperação paralela, implica reconhecer que temos, como sociedade, aceito um sistema educacional igualmente sem perspectiva, sem graça e sem inspiração. Professor mal preparado? Parece mesmo que sua figura e função social é que foram deterioradas.
O dia em que engenheiros, médicos, advogados assumirem salas de aula em escolas públicas, como sugere Veja, estas mazelas já terão sido superadas porque as condições de trabalho atualmente postas aos professores não os atraem. Também então estes profissionais serão tão úteis neste contexto quanto um professor de Matemática no escritório de Engenharia, um professor de Biologia no consultório médico, um professor de Filosofia no Tribunal de Justiça ou, como a maioria de nós, à frente da seleção brasileira de futebol.
ELAINE MATEUS é mestre em Educação e doutora em Linguística Aplicada e Estudos da Linguagem em Londrina





