O Papa e Lutero
O Papa Bento 16 iniciou na última quinta-feira a sua terceira viagem apostólica à Alemanha. Dessa vez o centro da visita é a cidade de Erfurt à qual Martim Lutero esteve muito vinculado.
Nessa ocasião a Igreja Católica e a Federação Luterana Mundial irão assinar uma Declaração conjunta em comemoração aos 500 anos da publicação das 95 teses de Lutero. O foco dessa viagem do Papa é ecumênico. Em 1983 a Comissão Católico-Luterana publicou uma Declaração Ecumênica sobre a pessoa e a obra de Lutero que vamos agora conhecer. São seis pontos de reflexão, a saber:
1. Lutero em seus escritos e pregação, expressa uma profunda experiência de Deus. Sua maior descoberta é que ''o justo vive de fé (Rm 1,17) e da misericórdia de Deus''. O apelo luterano à reforma da Igreja é um convite à conversão, à escuta do Evangelho do qual a Igreja tinha se afastado.
2. Lutero nunca teve a intenção de fundar uma nova Igreja nem queria separar-se da Igreja Católica. Foram as circunstâncias que atropelaram os conflitos e provocaram a ruptura. As ideias de Lutero foram recebendo ao longo da história numerosas distorções e simplificações abusivas, tanto no catolicismo como no protestantismo.
3. Hoje percebemos um intenso trabalho de revisão das ideias e da pessoa de Lutero. Não se trata de ''catolicizar Lutero'', mas de compreender seu ideal de reformador. ''Bem falou o cardeal Willebrands'', diz a Declaração, quando afirma: ''Lutero procurou viver honestamente e com abnegação a mensagem do Evangelho''.
4. Como teólogo, pregador, pastor, compositor de hinos e homem de oração, Lutero apela à primazia da Palavra de Deus na vida, ensino e serviço da Igreja. Prega a confiança absoluta na misericórdia divina, compreende a graça como uma relação pessoal entre Deus e o homem.
5. Tanto luteranos como católicos são hoje conscientes dos limites da pessoa e das obras de Lutero: seus ataques polêmicos, seus escritos contra judeus, sua consciência apocalíptica em relação ao papado, ao movimento anabatista e à guerra dos camponeses e outras condenações inaceitáveis.
6. Em síntese, afirma a Declaração, citando novamente o cardeal Willebrands: ''Lutero pode ser nosso mestre comum na afirmação de que Deus deve ter o primeiro lugar em nossa vida e que nossa resposta humana deve ser a confiança absoluta e a adoração de Deus. A quem reza e medita é revelada pelo Espírito Santo a misericórdia de Deus'', dizia Lutero.
Portanto, está superada aquela visão de que Lutero era um herói para uns e herege para outros. Uns fizeram dele um santo, outros um demônio rebelde. Estão acabando as lendas e se impõe hoje um ''respeito crítico''.
Não se trata de uma 'catolização de Lutero'', mas de uma compreensão histórica mais justa, sobre sua pessoa e sua obra que favorece o ecumenismo. A visita apostólica de Bento 16 a Erfurt quer ser um estimulo à unidade dos cristãos.
Desde o Concílio Vaticano II o ecumenismo é prioridade. Vamos celebrar os 50 anos do Concílio, estamos dando passos muito lentos em relação à unidade dos cristãos. Viver o ecumenismo é colaborar com a união dos povos. Se formos unidos o mundo crerá em Cristo Jesus.

DOM ORLANDO BRANDES é arcebispo de Londrina

mockup