ESPAÇO ABERTO
A histeria antifumo
A Câmara de Vereadores de Londrina acaba de aprovar projeto de lei proibindo o ato de fumar em lugares abertos como parques, praças, áreas de lazer, proibindo os fumódromos. O texto agora irá para a mesa do prefeito Barbosa Neto, que poderá sancioná-lo ou não. Vejo no endurecimento da legislação antitabagista um grande exagero, uma histeria pela saúde total, a ditadura da saúde coletiva. E digo isto de forma bastante isenta, já que não sou fumante e não pretendo sê-lo.
Em primeiro lugar, a produção, comercialização e venda de cigarros são atividades legalizadas no nosso país e altamente taxadas, o que, em tese, cobre os custos de saúde dos cidadãos que adoecerem pelo ato de fumar. Portanto, essa gradativa criminalização do fumo se constitui numa atitude, no mínimo, incoerente. A decisão de fumar, beber, comer churrasco ou se entupir de sanduíches em fast-foods deve ser apenas do indivíduo e de mais ninguém. Para tomar essa decisão, o sujeito leva em conta não apenas aspectos relacionados à saúde, mas outros aspectos ligados ao prazer e a toda uma forma de pensar e viver a vida. E deve ser dele, apenas, desde que não prejudique a terceiros.
Regimes totalitários é que costumam decidir sobre nossas liberdades individuais. Por outro lado, a ciência reconhece muito bem os males do fumo passivo. Porém, o respeitadíssimo epidemiologista norte-americano Geoffrey Kabat, que há décadas realiza pesquisas epidemiológicas envolvendo o fumo, diz que muito dos malefícios do fumo passivo têm sido simplesmente exagerados. De qualquer modo, a atual legislação estadual já proibiu completamente o cigarro em ambientes fechados, nem mesmo fumódromos com atmosfera isolada são permitidos, o que já resolveu o problema das indesejáveis baforadas sobre nossos narizes e atmosferas repletas de fumaça.
Desse modo, para que endurecer ainda mais a lei? Pesquisas mostram que, em áreas abertas, o problema do fumo passivo é simplesmente desprezível. Portanto, o endurecimento significa apenas atentar contra a liberdade individual do cidadão, significa apenas o isolamento e perseguição aos fumantes, que são o bode-expiatório da vez, como os leprosos foram no passado.
Churrasco provoca câncer e entope veias, açúcar provoca obesidade, câncer de pâncreas e diabetes, embutidos como salames e salsichas possuem nitrosaminas cancerígenas, estudos sugerem que os telefones celulares aumentam o risco de câncer de cérebro, os poluentes dos veículos automotores provocam várias doenças e, pasmem, estudos dizem que a prática de sexo oral aumenta a chance de câncer de boca e garganta.
Tudo bem, não sou fumante, abaixo o cigarro! Mas, amanhã, a ditadura pela saúde total se debruçará sobre outros prazeres da vida, limitando o churrasco, o salame, os doces, celulares e até mesmo o sexo oral. E, se quero ter uma saúde perfeita, em detrimento de alguns prazeres, esta decisão deve ser minha e de mais ninguém.
CRISTIANO MEDRI é biólogo, professor universitário e doutor em ciências ambientais em Londrina





